Entre os Tipos e a Memória

Da composição manual à impressão artesanal, a criação de um cordel comemorativo pelos 60 anos do curso de Jornalismo da UFG revela a história, os processos e a resistência do Ateliê Tipográfico em plena era digital

Por Angelina de Paula, Dhennifer Santos, Felipe Custódio e Isabela Sarah.

Em celebração aos 60 anos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG), com o auxílio do Ateliê Tipográfico da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), alunos do primeiro período do curso de Jornalismo produziram uma publicação especial que resgata a memória da graduação. Utilizando acervos históricos e técnicas artesanais de impressão, o projeto recorre ao cordel para narrar momentos marcantes da trajetória do curso e aproximar tradição gráfica e cultura popular brasileira.

Vídeo demonstrando parte do ateliê tipográfico da UFG. Vídeo: Felipe Custódio

Funcionando como laboratório e museu, o Ateliê Tipográfico da FIC reúne um acervo de equipamentos e maquinários que remontam ao século dezenove. O espaço integra o Museu da Ciência da UFG como núcleo museológico e, ao mesmo tempo, cumpre função didático pedagógica dentro da Faculdade.

O acervo, no entanto, não nasceu ali. As máquinas pertenciam ao Centro Editorial e Gráfico da UFG (CEGRAF), de onde foram retiradas em 2019, quando uma reestruturação do órgão exigiu a ampliação do pátio.

Vinculado ao curso de Biblioteconomia, o Ateliê abre suas portas também para estudantes de Jornalismo, Museologia, História e Artes Gráficas. À frente das atividades estão quatro servidores: a professora Andréa Pereira dos Santos, coordenadora e curadora; a professora Camila Alves Melo, vice coordenadora; o técnico de laboratório Matheus Eliseu da Silva Lima; e o professor aposentado José Vanderlei Gouveia, idealizador do projeto. Em breve, a equipe ganha um novo integrante: o tipógrafo Edson Rodrigues Leite.

SURGIMENTO DA TIPOGRAFIA

Uma montagem com Tipos móveis e Johannes Gutenberg. Foto: Acervo de Albrecht Mentz e Banco de Imagens DreamsTime

A origem da tipografia, com os tipos de argila e madeira chinesas, é datada do século onze. A arte de usar moldes de letras cobertas com tintas para prensar em superfícies planas contribuiu para a automatização do processo de cópia de textos.

Antes da criação tipográfica, os livros eram copiados à mão pelos chamado escribas, o que tornava a informação rara, cara e acessível apenas a uma pequena parcela da população. A tipografia moderna nasceu no século quinze com o alemão Johannes Gutenberg (1396-1468), considerado o criador da prensa de tipos móveis, revolucionou a circulação do conhecimento.

A produção de textos dependia de um trabalho artesanal, realizado nos espaços tipográficos. Esses locais eram onde cada página era construída, letra por letra, manualmente. Neles, tipógrafos organizavam milhares de tipos móveis, pequenas peças metálicas contendo letras em relevo, para compor páginas inteiras de jornais, livros, panfletos e folhetos de cordel.

Após a composição da página, os tipos móveis eram fixados em uma estrutura metálica chamada de “rama”. O conjunto precisava ser transportado cuidadosamente até a prensa para a impressão. Caso a rama não estivesse bem travada ou sofresse algum impacto durante o deslocamento, centenas de letras podiam se soltar e cair pelo chão da oficina. 

Imagine um texto de mil palavras escrito à mão. Com esse texto, um tipógrafo precisava selecionar uma por uma das letras necessárias, encaixá-las em sequência, alinhar linhas inteiras e prender tudo para a impressão. Era um processo lento, mas extremamente preciso.

Ateliê Tipográfico da UFG. Vídeo: Dhennifer Santos

Antón Corbacho Quintella, ex-diretor do CEGRAF, em 2015, explica em um vídeo para o Youtube que “A partir de [Gutenberg] então, surgiram vários modelos de tipos. Aqui, na Universidade Federal de Goiás, fundou-se, no ano de 1962, a Imprensa Universitária. A imprensa tinha um ótimo prédio, tinha máquinas funcionando com as manutenções”.

Mais de 10 anos depois, o maquinário da FIC segue sendo usado para a produção tipográfica. E é por meio do Ateliê que manuseando o chumbo, compondo letra por letra, os estudantes descobrem e entendem com as próprias mãos de onde vêm a impressão, a diagramação e o próprio ofício de fazer o jornal.

De acordo com Matheus Eliseu, técnico em design gráfico responsável pelo acervo há dois anos, apesar da riqueza cultural e histórica que o projeto carrega, a frequência de utilização do local é baixa. Parte disso ocorre por conta da espera de uma estrutura adequada para armazenar e proteger os equipamentos, que atualmente ficam expostos no pátio da FIC, sujeitos à sujeira, degradação e manuseio indevido por pessoas não autorizadas.

Além dos desafios estruturais, a baixa visibilidade do espaço também contribui para seu pouco uso. Em uma realidade acadêmica cada vez mais voltada às tecnologias digitais, muitos estudantes sequer conhecem a existência do Ateliê, ou não compreendem seu potencial para a produção de projetos gráficos, editoriais e experimentais. “O Ateliê em si não tem tanta visibilidade como deveria ter”, lamenta Matheus.

A ausência de atividades frequentes, oficinas regulares e ações de divulgação acaba afastando novos interessados e limitando o contato dos alunos com uma técnica que foi fundamental para a história da comunicação impressa.

Ainda assim, o local oferece um vasto potencial de criação, possibilitando a confecção de cartazes, livros, cordéis e até trabalhos de conclusão de curso (TCC). As possibilidades dependem da criatividade do autor e dos objetivos de cada projeto, o que mostra que a tipografia artesanal ainda pode dialogar com as demandas contemporâneas da comunicação e do design.

As estudantes Hellen Cristina e Ana Julia Andrade montando uma frase. Vídeo: Angelina de Paula

“A tipografia é eminentemente relacionada à história do próprio cordel. Então, sem o Ateliê Tipográfico, provavelmente a gente não estaria fazendo o cordel. Quando a gente vem pra cá com os estudantes fazer a composição de uma página, a gente entende como o que a gente tem hoje é fruto de um processo histórico”, explica a professora Rosana Borges.

Foi buscando resgatar essa potencialidade e cultura histórica da tipografia que a professora que ministra a disciplina de História do Jornalismo na UFG, propôs aos alunos da turma 60 de jornalismo o desafio de celebrar as seis décadas do curso por meio da literatura de cordel.

Trazido ao Brasil durante a colonização portuguesa, o cordel se consolidou, especialmente no nordeste do país, a partir do final do século XIX. Caracterizado por versos rimados e escritos, frequentemente, em sextilhas (estrofes de seis versos), eles são impressos em folhetos ilustrados, pendurados em barbantes para exposição ao público, o que lhe dá o nome “cordel”.

Em razão de sua linguagem simples e pela presença de xilogravuras (técnica de gravura em relevo) em suas capas, o cordel é uma importante manifestação cultural e reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. Ele desempenha um papel de identidade regional e ajuda na preservação de memórias, costumes e tradições históricas antigas.

O papel pedagógico do jornalismo, e o cordel pode ajudar muito, é traduzir as questões mais sofisticadas em linguagens que todo mundo compreenda. Esse é o papel do jornalismo. E essa estrutura da tipografia produziu coisas interessantes, mas talvez não tenha servido ao conjunto do curso por uma dificuldade nossa, professores e estudantes, de compreender a importância da tipografia, do cordel e, no fundo, da poesia

Nilton José dos Reis Rocha

Docente aposentado do curso de Jornalismo da UFG. Foto: Youtube da UFG

A escolha do cordel como uma das formas de marcar os 60 anos do curso não é por acaso. Segundo a professora responsável, Rosana Borges, o projeto está relacionado à origem desse gênero popular. Antes da rádio, da televisão e da internet chegarem às cidades, especialmente as do interior, o cordel funcionava como uma espécie de jornal do povo e era usado para contar acontecimentos políticos, sociais e culturais em versos fáceis de memorizar, que marcavam a vida dessas comunidades.

Por estarmos constantemente inseridos em uma era digital, a escolha de uma forma tão manual, inteiramente composta e impressa por estudantes, resgata a história do curso de uma maneira artística e expressionista de uma cultura popular brasileira que, ao longo do tempo, desempenhou um papel relevante na circulação de informações e na preservação da memória coletiva. 

O professor Nilton também comenta sobre a dificuldade da nova geração de abraçarem as antigas tradições, “A poética, a rima e a poesia podem ser formas muito interessantes de eu entrar no seu universo e você entrar no meu. Quando você pergunta sobre os 60 anos do curso, eu sou da terceira turma de jornalismo, o que você percebe, sobretudo depois dos anos 2010, é uma dificuldade de incorporar o novo sem abandonar o que já existe”.

Os estudantes responsáveis pela composição manual do cordel relataram suas experiências e ensinamentos após a finalização da montagem. Hellen Cristina, estudante de 19 anos, comentou sobre como seria se o projeto fosse realizado digitalmente.

Eu acho que quando você faz alguma coisa com as próprias mãos é diferente. É uma experiência totalmente diferente. Eu acho que a gente cria um carinho muito maior pelo que a gente está fazendo. E até um respeito muito maior. Porque deu muito mais trabalho do que daria se fosse simplesmente digitado e editado no Canva. Sabe? É muito mais complexo. E fora que o digital a gente poderia fazer cada um na sua casa. E isso aqui promove uma coisa social mesmo. Uma inclusão. É um processo muito divertido. E [estar] construindo é muito mais legal do que seria se fosse totalmente digital.
— Hellen Cristina.

Fotos disponibilizadas pelos estudantes.

TECNOLOGIA E ARTESANATO

O Contraste

Enquanto a equipe de reportagem acompanhava o processo de composição manual, entendemos, junto aos estudantes, como uma técnica histórica de impressão continua transmitindo conhecimentos. O Ateliê Tipográfico da UFG é a alternativa de que ao olhar para o passado também é uma forma de compreender o presente.

“Ao mesmo tempo em que vivemos uma era de tecnologias ágeis e imediatistas, também podemos nos comunicar por meio de formas tradicionais e artísticas. Tudo isso desperta nos estudantes uma consciência sobre o valor das coisas, uma valorização dos saberes ancestrais e populares. Não é porque uma prática é antiga ou menos tecnológica que ela deixa de ser rica. Pelo contrário, há muito aprendizado nessas formas tradicionais de comunicação”, como explicado pela coordenadora do curso de Jornalismo, Solange Maria Franco:

Espaços como o Ateliê, correm o risco de serem esquecidos por conta do avanço desenfreado da tecnologia, quando, na realidade, deveriam ser conservados e notados pela população. O Ateliê Tipográfico é mais que apenas um espaço acadêmico, ele representa a origem do jornalismo impresso e das ferramentas digitais utilizadas nos dias de hoje.  A importância dele é ainda mais evidente com os desafios enfrentados pelo espaço.

“Para nós, é motivo de grande satisfação integrar essa trajetória e, sobretudo, possibilitar que, 60 anos depois, estudantes tenham contato e possam experimentar as mesmas técnicas de impressão, hoje compreendidas também em sua dimensão artesanal, histórica e formativa”, comentou a curadora e coordenadora do acervo tipográfico, Andrea Pereira dos Santos.

Se a tecnologia digital revolucionou a produção e a disseminação de informações, o Ateliê nos lembra que toda inovação possui uma história anterior que merece ser preservada.

“Então, hoje a gente tem muitos recursos para fazer uma diagramação Hoje a gente pega e em uma sentada a gente consegue diagramar um jornal utilizando recursos específicos. Com muita facilidade a gente insere imagens, fotografias, figuras. Tudo isso começou há muito tempo atrás. A impressão manual é uma tecnologia que ainda existe na nossa sociedade, assim como existem tecnologias moderníssimas de diagramação, de composição e de impressão. São tecnologias diferentes de tempos históricos distintos”, afirma Rosana Borges.

Você Sabia?

As maiúsculas chamam-se caixa alta porque os tipos móveis ficavam nas gavetas superiores do móvel tipográfico — e as minúsculas, na caixa baixa, por serem mais usadas.

Você Sabia?

Estereótipo e clichê são termos tipográficos. Eram as chapas de metal que copiavam uma página inteira de tipos — reproduzidas sem alteração, vezes e vezes.

Você Sabia?

A prensa de tipos móveis tem origem na produção de vinho. Desenvolvida por Gutenberg em 1440, foi inspirada nas prensas usadas para esmagar uvas e azeitonas.

Desenvolvido pela Inteligência Artificial “Claude AI”, com supervisão humana.

Foi a tipografia que tornou possível imprimir jornais em larga escala dando origem ao Jornalismo que conhecemos atualmente. Da máquina de escrever aos supercomputadores de hoje, seus termos atravessaram séculos sem perder o lugar. E é nesses encontros que a prensa e a tela contam histórias diferentes sobre o mesmo ofício: enquanto o digital aposta na velocidade, a tipografia faz questão de expor cada etapa.

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