Dos bichos aos bichinhos: uma visita ao histórico da aposta no Brasil

Por Geovanna Porto, Giovanna Wolney, Maria Luiza Inocêncio e Giulia Serikaku

A história das apostas no Brasil é atravessada por mudanças constantes. Ao longo do tempo, o jogo do bicho saiu da ilegitimidade e ganhou uma perspectiva de “investimento” quando o Estado legalizou as bets, migrando do meio físico para o digital

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Ela [Maria]estava perdendo muito, mas não conseguia pensar em outra coisa também. Isso começou a afetar ela em casa e no trabalho. Ela tinha essa fixação que tinha que jogar todos os dias, que se ela jogasse todos os dias ela ia ganhar. E nisso a gente começou a acender um alerta”, afirmou Rosilene, filha de Maria.

Maria de Souza, afirma ter começado a jogar quando tinha por volta de 40 anos, e não se lembra ao certo por quanto tempo manteve o hábito.

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Chegava gente lá em casa [no bar que ela e o marido eram proprietários], comentando que ganharam. Aí eu me deu vontade de ganhar. Todo dia chegavam contando que sonharam com alguma coisa. [...] E depois chegavam me contando, ‘aquele sonho que você me contou, eu joguei e ganhei tanto’. Aí passei eu a jogar e ganhava todo dia”. 

Todo dia?

A senhora, já em seus mais de 80 anos, sorri de lado e confirma “todo dia”.

Tudo dependia dos sonhos, explicou Maria. 

Com as portas fechadas e em um tom de voz baixo, Rosilene de Souza confidencia: “Minha mãe acordava já pensando no Jogo do Bicho”.

“Eu tinha entre 12 e 13 anos quando a minha mãe começou a jogar. No começo a gente [pai e irmãos] não viu como vício, a gente viu como uma distração. Ela jogou por mais ou menos um ano ou perto disso, quando a gente começou a se incomodar”. 

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A psicóloga Juliette Rodrigues, especialista em Neuropsicologia, que atua principalmente com transtornos como ansiedade e depressão, explicou a resposta da psiquê humana ao receber os estímulos dos jogos de aposta.

Segundo Juliette, na psicologia chama-se transtorno ou vício tudo o que atende a três critérios: frequência, intensidade e sofrimento clinicamente significativo. 

Quando você realmente perde o controle no sentido de ficar pensando o tempo todo, tem sentimentos como irritabilidade, culpa… dificuldade em parar. Você deixa, às vezes, de fazer alguma atividade que você tinha que fazer porque está pensando nesses jogos ou realmente pensa o tempo inteiro”, e acrescenta ainda “a gente vê que muitos apostadores alegam que não tem vício e sim um hobby ou até uma estratégia de ganhar dinheiro ali, como se fosse uma renda extra”.  

Quando questionada se consideraria seu período de jogos um vício, Maria afirmou com leveza que sim. 

Sim, claro. Vicia mesmo. Você fica doida para fazer o jogo”, respondeu a idosa com tom de humor.

A filha de Maria, por outro lado, demonstrou surpresa com a resposta da mãe e questionou: “ela admitiu então?”.

1892

Origem do jogo do bicho

Criado pelo barão João Batista Viana Drummond no Rio de Janeiro como estratégia para atrair público ao seu zoológico, que enfrentava corte de verbas. Os visitantes recebiam a figura de um animal no ingresso e podiam ganhar um prêmio equivalente a vinte vezes o valor pago. Ninguém previu as proporções que aquele pequeno sorteio tomaria.

1894

Surgimento dos bicheiros

O jogo de sorteio dos bichos escalonou de tal forma que, poucos anos depois de sua criação, cada pessoa podia comprar quantos bilhetes desejasse e também adquiri-los de vários revendedores, nomeados então de bicheiros. Foi nesse período que o jogo do bicho migrou de um mero sorteio para se tornar realmente um jogo de azar.

1895

Proibição e resistência

A Prefeitura do Rio de Janeiro proibiu os sorteios para combater as apostas crescentes. Mesmo ilegal, o jogo continuou mais forte: os bicheiros passaram a realizar seus próprios sorteios de forma autônoma, deixando de atuar como meros intermediários.

“O Jogo do Bicho era feito de uma forma meio escondida, meio velada” comentou Rosilene. “Tinha um motociclista que buscava os jogos naqueles lugares que ele tinha contato. Um desses contatos era lá no bar que meu pai tinha na época, só que a partir do momento que minha mãe começou a ficar assim, com o sintoma de viciada mesmo, a gente ficou preocupado e meu pai interrompeu essa passagem desse motociclista lá. Quando ele parou de passar isso deixou ela um pouco abalada”.

1920

Rádio, telégrafo e telefone

Foi nesse período que o rádio, o telégrafo e o telefone atuaram como alguns dos meios que os bicheiros utilizaram para espalhar o "Jogo do Bicho" pelo país. O alcance do jogo mudou bruscamente a partir de então.

 Jogo (i)legal

De acordo com o advogado Hamilton Governatore, especialista em direito trabalhista,  os bingos, jogos do bicho e os cassinos, no Brasil, não são tipificados como crime.

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Os bingos, o jogo do bicho e os cassinos são considerados, no Brasil, como contravenção penal e não são tipificados como crime ou coisa mais grave. Contravenção penal é algo mais leve e está previsto no decreto Lei n°3688/1941. Inclusive os caça-níqueis também”.

À época, cerca de 40 anos atrás, nos anos 1980, quando Maria apostava frequentemente, o Jogo do Bicho já era classificado como contravenção penal. No entanto, sob o contexto da redemocratização e da Nova República no Brasil, a barreira da ilegalidade era frequentemente sobreposta pela corrupção e a fiscalização era burlada. De tal forma, as apostas eram feitas tranquilamente sob a luz do dia em locais públicos. Como a própria Dona Maria comentou, seus jogos eram feitos durante os dias no bar de seu marido.

1940

Criminalização do jogo

O Jogo do Bicho alcançou proporções ainda maiores nos anos 1940. Essa década também serviu de cenário para a criminalização do jogo, o que colocou os bicheiros em risco e sob ameaça de prisão. Apesar dessa repressão legal, o Jogo do Bicho continuou ganhando força.

1980

Auge e crime organizado

O auge do Jogo do Bicho despontou na década de 1980, quando a prática encontrou seu momento de maior popularidade, mesmo em meio à ilegalidade. Foi também nessa época que os donos do jogo ganharam força ao se aliarem ao crime organizado. Daí em diante, o jogo seguiu até a atualidade com menos força do que já teve, mas continuou driblando a proibição e se mantendo presente no cenário nacional.

 

O fim do ciclo vicioso

Maria conta que parou de jogar porque, de certa forma, o jogo parou de “ir até ela”, sem saber que o marido havia colocado essa barreira entre ela e o apontador. A costureira diz que era mais difícil jogar, uma vez que precisaria se locomover até o centro da cidade para poder jogar.

Era um pouco longe para mim ir. Não tinha muito tempo. Eu costurava, então não tinha muito tempo para sair, para fazer o jogo”, afirmou, Maria. 

Então, quando questionada se voltaria a jogar se essa prática voltasse a ser “fácil”, ela responde que sim.

“Lógico que eu jogaria, porque é pouquinho. Se caso eu perder, eu não jogo. Mas era pouquinho dinheiro”.

Com mais de 80 anos de idade, Maria não sabe manusear aparelhos eletrônicos e tem pouca familiaridade com qualquer tecnologia. Por isso, não tem a mera noção de que o catálogo dos bichos foi completamente digitalizado e, mais fácil do que em sua época, os jogos de azar enfeitados com animais estão na palma da mão de qualquer um, a qualquer momento.

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O grupo 22 – das dezenas 85, 86, 87 e 88 – ganhou um jogo próprio nas plataformas de aposta e a carreira solo do “tigrinho” fez sucesso pelo Brasil. Não só o tigre ganhou um makeover completo, mas vários outros, como o “coelhinho” também – que era a cara do grupo 10, das dezenas 37, 38, 39 e 40.

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O “coelhinho”, por exemplo, era o favorito de Ricardo.

Ricardo afirmou já ter apostado no Jogo do Bicho quando tinha por volta de 18 anos, e que hoje tem o costume de fazer apostas esportivas nas plataformas mais conhecidas, como a “Betano”, a “365” e a “Bet Nacional”. 

2018

Legalização das apostas esportivas

O presidente Michel Temer aprovou a PL nº 13.756, autorizando casas de apostas esportivas a operarem no Brasil. As chamadas apostas de quota fixa garantem ao apostador conhecer seu potencial ganho antes de apostar, tornando o mercado mais atrativo.

2023

Explosão das bets online

A PL nº 14.790/2023 legalizou também os jogos online, e as bets multiplicaram-se no ambiente digital. A publicidade cresceu com forte investimento em influenciadores, e os jogos de azar passaram a ser vistos com maior credibilidade pelo público.

Para uma plataforma de apostas on-line operar no Brasil, é necessário passar por uma regulamentação da Secretaria de Apostas (SPA). Segundo a planilha oficial divulgada pelo Governo Federal, atualizada pela última vez em junho de 2026, um total de 187 empresas têm a permissão para operar no país. Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), o Ministério da Fazenda (MF) enviou à reportagem a relação dos indeferidos e ilegais.

Ao lado de Ricardo, durante toda a conversa, estava Maria Eduarda, sua filha, que trouxe uma segunda perspectiva sobre o comportamento do pai.

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“Ele joga muito, aí em vez dele jogar 10 reais em um jogo que ele tem certeza, não, ele joga em 5 que dois ele tem certeza e em três que não tem certeza… aí ele perde 15 reais. Mas ele quer por que quer ganhar mil de uma vez” , disse Maria Eduarda.


Ricardo confessou que passou pelo vício, mas atualmente considera as apostas controladas e enxerga a prática apenas como uma maneira de diversão. “Quando eu perdi eu tava viciado… aí eu parei”, disse Ricardo, mas acrescenta em contrapartida “eu não fiquei sem jogar o de futebol… Não é igual aquele tigrinho, que você aposta e vai de novo, ganha e vai de novo, aumenta a aposta…Aí realmente você vicia.” 

Igual o do coelho?  

“Do coelho eu cresci o olho nele, tava dando 20mil, e foi indo… No final eu perdi o dinheiro”

No contexto dos jogos de azar, o termo “gamificação” ganha destaque. Diferentemente de seu uso para a aprendizagem nas salas de aula, no meio corporativo ou até mesmo em aplicativos de saúde e bem-estar, no universo das apostas esse processo de transformar uma atividade em jogo também se infiltra de forma sedutora para seduzir e fidelizar novos apostadores.

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Mariana Dalcin, publicitária atuante na área do marketing há 18 anos, explicou de forma simples como a gamificação acontece. Essa estratégia, segundo a publicitária, é basicamente tornar algum processo em um jogo porque isso é atrativo para o público. Ela continua explicando que “…não é à toa que se torna um vício, porque é atrativo e a pessoa gosta de fazer aquilo ali.”

A seriedade do discurso sobre o dinheiro envolvido nessas apostas se esvai quando o termo “jogo” beira o literal e os apostadores se deixam levar pela emoção do “esportivo”. 

“A pessoa se sente segura por pensar ‘ah não é só um joguinho’. É justamente isso que faz ela ficar conectada naquilo ali, porque é um jogo. Então, o fato de ser um jogo e com isso eu ter uma recompensa, por que eu não vou jogar? E aí depois vai se tornando um ciclo”, continua Dalcin.

 Os números não mentem, mas enganam

Valdivino Vargas Júnior frisa um fato: “tem muita gente perdendo dinheiro nisso”.

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“Por causa das apostas estarem muito em moda, você vai encontrar hoje em dia diversas dicas de influencers, ou de pessoas comuns mesmo, ensinando modos de ganhar dinheiro fácil em apostas. Agora é o seguinte, não existe fórmula mágica para ganhar em apostas. A banca, em média, sempre está em lucro. Então a ideia é não procurar por isso na internet, porque se você achar lá método fácil para ganhar dinheiro em apostas, é mentira. Não existe método para ganhar dinheiro em apostas, seja físico ou seja online”, explicou Valdivino.


Segundo Mariana, é por meio dos criadores de conteúdo que essas plataformas geram e comunicam confiabilidade em cenários de risco econômico. “Primeiro porque é muito dinheiro envolvido, então hoje essas ferramentas conseguem fazer publicidades muito caras que outros negócios não conseguem. Então, com muito dinheiro a gente consegue fazer publicidades maravilhosas e isso gera confiança”.  Dalcin reitera também que a escolha de influenciadores, atletas e celebridades como seus principais representantes e divulgadores é uma ação intencional das plataformas para o máximo de alcance e credibilidade. 

Com desdém, o estatístico cita alguns métodos e táticas de aposta divulgadas na internet. Entre essas está o que ele chama de “jogo controlado”.

“Seria você adotar uma estratégia onde você não faz grandes apostas e sim pequenas apostas para controlar suas perdas. Esses métodos realmente fazem com que você tenha pequenas perdas com grande probabilidade, ou seja, você perde pouco. Alguém poderia dizer que é um método bem indicado para o jogador compulsivo, mas o jogador compulsivo dificilmente aderiria a isso, e alguns dizem que é bom para a pessoa que quer se divertir sem fazer grandes apostas”, explica Valdivino.

2026

Copa do Mundo e endividamento

Em meio à Copa do Mundo, as bets online vivem mais um pico. Afinal, pela primeira vez desde a ascensão das apostas online em 2023, acontece paralelamente o maior evento do mundo esportivo. Com isso, o gasto em bets aumentou em todo o Brasil, o que acarretou a elevação simultânea do endividamento da população.

Para complementar o posicionamento do professor, Juliette comenta sobre como a ilusão do controle, ao mascarar o vício como um hobby ou uma estratétiga, retroalimenta a compulsão. Ela explica que na psicologia isso se separa em dois termos, “viés cognitivo” e “distorção cognitiva”.

“A pessoa entra em um estado de negação. Não é uma falsa ilusão de que tá no controle ou que tá realmente fazendo pulo de estratégia”, exemplifica que pode-se criar um certo tipo de superstição que atravessa essas estratégias, “a pessoa vai criando um mecanismo de negação achando que ela tá sendo estrategista [...] fica achando uma falsa sensação de que está no controle. Que isso aqui é só por lazer, né? ‘Eu sei a hora de parar. Porque eu vou estudando, mas é puro algoritmo, né?’”, diz a psicóloga.

Jogadores passivos

A psicóloga fala também sobre as relações familiares atravessadas pelos vícios em jogos.

“Essa família também fica ansiosa, porque, a partir do momento que ela fala, ‘olha, eu estou viciada num jogo’, essa família fica hipervigilante, então a gente gera uma ansiedade. A família fica o tempo inteiro. ‘Será que fulano jogou?’, ‘Será que aquele dinheiro que me pediu emprestado é pra jogar ou é pra realmente pagar aquela conta?’. Às vezes tem endividamento, né… brigas no casamento, então separação… então são várias coisas que afetam a dinâmica familiar”.

O ressentimento da família não é algo que passa batido, Maria Eduarda frisa que o dinheiro perdido ajudaria na reforma da casa na época do ocorrido. A filha também lamenta os momentos de lazer que perde com o pai por conta das apostas. “A gente está assistindo um filme, eu não consigo assistir um filme inteiro com ele. Porque ele para pra poder jogar. Ele para pra poder fumar, e quando ele vai fumar, ele olha o celular. E aí ele fica horas e horas depois dos filmes”. 

A esposa de Ricardo, Núbia Leal, de 47 anos, relata que o marido não assume o vício. Apesar dele ter diminuído a frequência desde a perda dos R$20 mil reais, situação que levou à grandes dívidas e empréstimos para tentar contornar a situação, Núbia ainda o considera viciado.

“Ele nunca acha que é muito, que é demais… E além do jogo, tem o vício do cigarro, né? Ele fica fumando e a gente vê que ele fuma mais…Ele fica ansioso e fuma mais. Fica mais nervoso, mais agitado.”

Juliette afirma que um quadro de ansiedade pode agravar o vício “tem uma retroalimentação… muitas pessoas nesse quadro de adoecimento psíquico usam como forma de regulação emocional, então assim, ‘eu tô ansiosa, preocupada com alguma coisa, vou jogar o jogo ali pra me distrair’”. 

Por esses e outros motivos, Juliette afirma  “a gente tá caminhando pra uma epidemiologia, daqui a pouco vai ter uma pandemia dos jogos. Realmente, com os impactos mesmo [...] não é um impacto só individual. É um impacto coletivo,[...] impacta, por exemplo, no PIB brasileiro”.

O distúrbio da Ludopatia

Por meio da LAI, a Secretaria da Saúde de Goiás foi questionada pela reportagem sobre a demanda para tratamentos de vícios em jogos de aposta, ludopatia. A Secretaria respondeu que, atualmente, o transtorno não constitui um agravo e não possui um campo específico de registro nos sistemas de informação à saúde, e portanto não é possível mensurar o transtorno em dados estatísticos.

"Atualmente, o transtorno relacionado ao jogo (ludopatia) não integra a lista nacional de agravos de notificação compulsória do Ministério da Saúde, não possuindo ficha específica de notificação no SINAN nem campo estruturado nos sistemas oficiais de informação em saúde. Dessa forma, não há base de dados padronizada que permita a extração de informações epidemológicas específicas sobre esse agravo", informou a Secretaria de Saúde.

Porém, sob a perspectiva da neuropsicóloga, Juliette, existe sim um grupo substancial para classificar a ludopatia como um transtorno em agravamento na saúde pública: “Com certeza, os dados do Serasa mostram que o maior endividamento, inclusive, também tem sido por parte, por conta desses jogos [...] as pessoas pegando empréstimos para pagar jogos de aposta, e até mesmo a questão do Bolsa Família, tem muita gente vulnerável social, que acaba por essa promessa também”.


As dados do gráfico foram disponibilizadas via Lei de Acesso á Informação, pelo Ministério da Fazenda

Um estudo recente feito pela FIA Business School em parceria com o Ibevar, aponta que as apostas online são um dos maiores fatores de endividamento das famílias brasileiras. A pesquisa usou cálculos a partir do crédito sobre renda, juros, tempo de dívidas e bets.

Ela analisou dados do período entre 2011 e 2025, e o coeficiente de dívida gerado pelas bets foi de 0,2255. O número supera os juros de cartão e créditos, respectivamente em 0,0440 e 0,0709. 

Além disso, o Ministério da Fazenda forneceu a informação de que “O volume total apostado no país somou R$959.953.016.124,84 em jogos online e R$358.348.775.134,10 em apostas esportivas”. Estes dados, no entanto, contemplam apenas sessões premiadas devido às exigências do modelo de dados.

Para entender a operação das apostas virtuais no país, mesmo após as ressalvas dos profissionais que falaram com a reportagem, é relevante compreender, primeiramente, como esse dinheiro circula pela economia brasileira.

Quando todo o dinheiro que os jogadores apostam em uma determinada banca é, por fim, reunido, chama-se handle. O que resta desse valor após o pagamento dos prêmios constitui a receita bruta da casa de aposta, conhecida como Gross Gaming Revenue (GGR). A partir desse valor incide, então, a participação da União.

Ainda de acordo com dados fornecidos pelo Ministério de Fazenda, as arrecadações da União sobre as apostas de quota fixa podem ser separadas em três grupos diferentes.

Mercado Regulado de Apostas
Participação da União
?
?
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Arrecadação da União
R$ 4.207.950.534,94
Distribuída nas 3 destinações
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As informações foram disponibilizadas via Lei de Acesso à Informação, pelo Ministério da Fazenda

A fatia do montante que se destina à receita pública distribui esses rendimentos para órgãos públicos. Por exemplo, em Dezembro de 2025 a União obteve R$ 462,9 milhões, total esse que foi distribuído entre Tesouro Nacional, Ministério da Saúde – para prevenção e mitigação dos danos causados por jogos –, Ministério da Educação, FNDE – para programas educacionais –,  Polícia Federal (FUNAPOL), Fundo Nacional de Segurança Pública, Ministério do Esporte, SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras)  e Ministério do Turismo.

Existe também a taxa de fiscalização, uma cobrança feita às casas de apostas para custear as atividades regulatórias e de supervisão do setor  Em 2025, arrecadou-se cerca de R$ 104 milhões com a fiscalização.

As dados do gráfico foram disponibilizadas via Lei de Acesso à Informação, pelo Ministério da Fazenda

Algumas entidades específicas também são beneficiadas com a arrecadação da União, como a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que receberam, respectivamente, R$32 milhões e R$2,29 milhões em dezembro de 2025.

Calcula-se, portanto, que entre Fevereiro e Dezembro de 2025 as apostas de quota fixa geraram cerca de R$ 4,21 bilhões em receitas, taxas e repasses previstos pelo Tesouro.

“É balela” 

Ricardo, expõe sua atual rotina de uso das bets e confirma, ainda que de maneira sutil, a eficácia da estratégia da gamificação no campo das apostas. 

O que você faz para tentar recuperar esse dinheiro?

Ricardo é certeiro ao defender que seu objetivo, hoje, dentro das bets online, não é recuperar o dinheiro perdido anteriormente, “...diversão mesmo, se ganhar é lucro...”. 

Esse entendimento de que as apostas são seguras e a afeição demonstrada, tanto  por Ricardo quanto por Maria, evidencia que a estratégia de marketing, de transformar essas apostas em “hobbies” atraentes e inofensivos, de fato funciona. 

“A pessoa se sente segura por pensar: ‘ah, não, é só um joguinho’. É justamente isso que faz ela ficar conectada naquilo ali, né? Porque é um jogo. Então, pelo fato de ser um jogo e de eu ter uma recompensa com isso, por que eu não vou jogar? E aí depois vai se tornando um ciclo…”, explica Dalcin.

Apesar da gamificação ser uma estratégia amplamente utilizada para embelezar as apostas e seus objetivos, a publicitária ressalta que: “Existem ‘N’ formas de usar a gamificação de forma positiva? Existem! Esse não é o caso. Mas o que aconteceu foi que transformaram isso [a gamificação], que poderia ser algo muito positivo, que a gente pode usar como ferramenta de marketing e de publicidade, em uma coisa que não é positiva”.

Por fim, Ricardo comenta, “Eu não indico ninguém a entrar [no meio dos jogos de aposta]. Você tem que entrar com a mentalidade de diversão, não achar que você vai ficar rico e ganhar dinheiro, isso aí é mentira, é balela”.

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Iniciativa do Governo Federal

Com o crescimento das apostas online e o consequente aumento dos casos de dependência em jogos, o Governo Federal lançou uma iniciativa que permite a autoexclusão voluntária de plataformas de apostas. Por meio do bloqueio do CPF, o usuário fica impedido de criar novas contas e de acessar ou movimentar contas já existentes vinculadas ao seu documento.

Esta reportagem utilizou ferramentas de inteligência artificial como apoio na produção de elementos visuais (Claude IA e Gemini). A apuração, a checagem dos dados, a realização das entrevistas e a edição final do conteúdo foram conduzidas exclusivamente pela equipe de reportagem.

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