A cena do cinema independente e de temáticas LGBTQIAP+ no estado de Goiás

A cena do cinema independente e de temáticas LGBTQIAP+ no estado de Goiás

Por Ana Luisa Freitas, Laura Cáceres, Luana Sampaio e Renato Cândido

“É legal ver uma vivência tão similar à minha na tela. […] É legal ver experiência de pessoas que também têm a mesma sexualidade que você, sendo abordadas de formas diferentes, pessoas diferentes.”

— Hayane Bonfim

Longe das grandes produções comerciais e dos circuitos tradicionais de exibição, o cinema independente LGBTQIAP+ goiano vem conquistando espaço entre os telespectadores por meio de festivais, mostras, cineclubes, centros culturais, universidades e plataformas digitais, alcançando um público interessado em narrativas que nem sempre encontram lugar no cinema convencional.

Mais do que uma opção de entretenimento, o consumo dessas produções representa uma busca por identificação, pertencimento e visibilidade. Para parte da comunidade LGBTQIAP+, assistir a personagens e histórias que se aproximam de suas próprias experiências e realidade pode significar reconhecer-se na tela e perceber que suas vivências também merecem ser contadas. Já para outros espectadores, o contato com o cinema independente amplia o olhar sobre as diversas realidades presentes no estado e contribui para questionar estereótipos ainda produzidos pela indústria audiovisual.

Para compreender melhor o perfil desse público, o grupo responsável pela reportagem realizou uma pesquisa própria por meio de um formulário. Os dados obtidos ajudam a identificar quem são os participantes, suas identidades e orientações sexuais, além da relação que mantêm com produções goianas de temática LGBTQIAP+. O levantamento tem caráter ilustrativo e não representa a totalidade dos consumidores de cinema independente em Goiás, mas contribui para visualizar algumas características e experiências desse público.

O que dizem as 77 respostas ao nosso formulário

Fonte: dados produzidos pela equipe da reportagem. Aplicação de um questionário próprio.

A maior parte dos participantes interessados no cinema independente goiano de temática LGBTQIAP+ é formada por jovens, especialmente pessoas inseridas no ambiente universitário. Essa proximidade com a universidade pode contribuir para um maior contato com debates sobre diversidade, representação e direitos da comunidade, além de facilitar o acesso a mostras, cineclubes, festivais e outras iniciativas culturais relacionadas ao tema.

O público consumidor do cinema LGBTQIAP+ reúne pessoas com diferentes identidades de gênero e orientações sexuais, mostrando que essas produções alcançam espectadores com experiências diversas.

Entre os 22 participantes heterossexuais, apenas um (4,5%) afirmou já ter assistido a uma produção goiana com protagonista LGBTQIAP+. Entre os 24 participantes bissexuais, oito (36,4%) afirmaram ter tido essa experiência.

Em Goiás, realizadores, produtores e coletivos encontram diversas dificuldades na produção dos filmes, mas ainda assim, buscam por alternativas para manter essas obras em circulação e aproximá-las do público, permitindo um contato para além dos estereótipos frequentemente reproduzidos pelo cinema e pela televisão.

A relação entre o público goiano e o cinema independente LGBTQIAP+ revela não apenas hábitos de consumo, mas também disputas por representação e reconhecimento. Ao escolher assistir essas produções, os espectadores ajudam a fortalecer uma cadeia audiovisual que resiste à invisibilidade e cria novas possibilidades para o cinema e para os produtores independentes.

Como se manifesta o cinema independente em Goiás?

A trajetória do cinema goiano é marcada por questões pouco conhecidas e debatidas pelo público geral no estado. Segundo Thaís Oliveira, professora e pesquisadora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG), a consolidação de um cinema de ficção goiano aconteceu por volta dos anos 1960. Nesse contexto, a pesquisadora afirma que o apagamento marca fortemente esse primeiro momento do cinema goiano, não só em termos de obras, mas de nomes também, como é o exemplo de Ceci Pinheiro, destacada por Thaís como um dos nomes do pioneirismo nas produções goianas. Outro nome de destaque nesse primeiro momento do cinema goiano é o do diretor João Bennio.

A partir dos anos 2000, a expansão dos cursos de audiovisual e das políticas públicas de incentivo contribuíram para ampliar a produção cinematográfica de Goiás. Para Thaís, a formação de profissionais nas universidades e o “barateamento relativo” dos equipamentos permitiram que novos realizadores desenvolvessem seus projetos. A pesquisadora ressalta que esse crescimento está diretamente relacionado com a disponibilidade de recursos e incentivos públicos.

Um pedaço desse desenvolvimento aparece no Catálogo de Filmes Goianos: 2000–2020, publicado por Thaís em 2024, pela Editora UEG. O levantamento reúne 1.264 obras produzidas no estado, identificadas a partir de festivais, filmes disponibilizados em plataformas digitais como o YouTube, livros e outros registros. A publicação busca preservar a memória do audiovisual goiano e documentar seus profissionais.

Alguns dos filmes disponíveis no Catálogo de Filmes Goianos: 2000–2020 de Thaís Oliveira

Clique em um filme para ver ano, gênero e direção

32 filmes

Nenhum filme encontrado. Tente outro termo ou outro gênero.

Fonte: Thaís Oliveira. Catálogo de Filmes Goianos: 2000–2020. Editora UEG, 2024.

Dentro dessa grande cena cinematográfica se localizam também os filmes goianos que abordam temáticas da comunidade LGBTQIAP+. Alguns cineastas são responsáveis por abordarem corriqueiramente em suas obras filmes temáticas queer, como é o exemplo de Daniel Nolasco, diretor de Vento Seco (2020), além do mais atual Apenas Coisas Boas (2025), ambos rodados no estado de Goiás.

“Apesar de estarmos num estado [...] que tem maioria conservadora, existe uma cena de cinema LGBT, cinema queer, forte, sendo realizada aqui [...] e com cineastas premiados.”

— Thaís Oliveira, professora e pesquisadora da UEG.

Entretanto, o reconhecimento em festivais não garante que essas produções cheguem ao grande público. Um grande empecilho se manifesta na baixa presença desses filmes em telas de cinema. Segundo a pesquisadora, a distribuição é um dos principais obstáculos enfrentados pelo cinema independente, não só goiano, mas brasileiro em geral. Enquanto grandes produtoras possuem recursos para negociar espaços de exibição e inserção em plataformas, produções menores frequentemente dependem de festivais e mostras para alcançar espectadores, permanecendo restritas a circuitos muito específicos e que não vão ser de fácil acesso a todos. “Geralmente a gente para ali depois de fazer o filme, né? Porque falta fôlego, falta dinheiro, investimento, [...] para ir para essa última parte que é a distribuição”, destaca Thaís.

No caso das produções de temática LGBTQIAP+, o contexto sociocultural de Goiás também influencia as histórias contadas nas telas. Thaís destaca que, apesar do conservadorismo que identifica no estado, realizadores independentes têm explorado experiências dissidentes a partir de diferentes perspectivas, como religiosidade, identidade de gênero e vivências urbanas. Para a pesquisadora, a existência de uma cena queer premiada demonstra que essas narrativas encontram espaço para se desenvolver, mesmo fora dos grandes centros de produção audiovisual do país. “Apesar de estarmos num estado, que tem maioria conservadora, existe uma cena de cinema LGBTQIAP+, cinema queer, forte, sendo realizada aqui”, ressalta Thaís.

Nesse cenário, as universidades também contribuem para a renovação do cinema independente goiano, especialmente por meio de curtas-metragens que exploram novas linguagens e narrativas LGBTQIAP+. Mesmo diante das dificuldades de produção e circulação, essas iniciativas ampliam a diversidade de histórias contadas e fortalecem uma cena cinematográfica que busca cada vez mais espaço e reconhecimento.

E quem produz, está satisfeito?

Para cineastas independentes, o financiamento é um dos principais desafios para tirar um filme do papel. Os custos com equipamentos, transporte da equipe e outras etapas da produção exigem recursos que nem sempre estão disponíveis. Maksuel Matheus, graduando em Publicidade e Propaganda e cineasta independente, relata que, muitas vezes, precisa financiar os próprios projetos e contar com a colaboração de amigos, familiares, conhecidos e outros profissionais que acreditam na proposta. Entre as alternativas estão a realização de vaquinhas on-line e parcerias com empresas que cedem espaços para gravações em troca de divulgação do negócio.

A dificuldade de financiar produções independentes vai além da falta de recursos e envolve também a valorização do trabalho dos cineastas e as condições em que atuam. Para Erik Ely, realizador audiovisual formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), a construção de um cinema sustentável depende de condições financeiras que permitam aos profissionais desenvolver seus projetos com estrutura e cuidado. “A gente tem que deixar um pouco também de romantizar essa ideia de cinema independente, de que ele vai recusar o dinheiro e aí eu vou fazer tudo com meu suor. [...] A gente quer fazer recebendo, a gente quer fazer com cuidado”, afirma.

Além dos desafios financeiros, fazer com que as produções cheguem ao público também é um obstáculo para o cinema independente goiano. Na visão de Maksuel, o preconceito em relação às obras realizadas fora dos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, contribui para uma visão distorcida sobre o audiovisual produzido em Goiás, como se o estado não fosse capaz de contar histórias relevantes e interessantes. Diante desse cenário, o cineasta destaca a importância de valorizar a produção local e ampliar seu alcance.

“A gente precisa cada dia mais valorizar o que é produzido aqui em Goiânia, aqui em Goiás, e dar ao público a oportunidade de conhecer nossas obras”

— Maksuel Matheus, cineasta independente de Goiás.

Essas barreiras de financiamento e circulação também aparecem no cinema independente com temática LGBTQIAP+, mas, segundo Erik Ely, envolvem dificuldades específicas de acesso aos recursos. Para o realizador, projetos com abordagens mais “transgressoras” tendem a permanecer em circuitos independentes e a receber menos recursos, enquanto produções com narrativas mais heteronormativas conseguem acessar editais de maior porte. O cineasta também aponta desafios na distribuição dessas obras, cuja circulação pode ser afetada por fatores como a classificação indicativa e as possibilidades de exibição em diferentes canais.

O cinema independente goiano com temática LGBTQIAP+, para ser um produto de qualidade e fugir dos estereótipos, precisa ser produzido por uma equipe diversa. Para Erik, os filmes precisam ser feitos por pessoas que entendam dessas questões, capazes de contribuir de forma rica com suas próprias vivências e de escrever sobre situações reais. “Acho que os estereótipos surgem muito quando pessoas que, às vezes, não conhecem determinada realidade decidem produzir obras sobre ela, até mesmo por uma questão mercadológica, porque esses filmes estão ganhando visibilidade e se tornando tendência no mercado, nos festivais e nas mostras”, explica.

O cineasta acrescenta que produções com mais recursos, tempo de desenvolvimento e cuidado podem construir personagens queer mais complexos e profundos, que não se limitam às categorias de “bons” ou “maus”, mas apresentam características que os tornam mais humanos. Além disso, Erik destaca a importância de que os realizadores mais jovens conheçam produções anteriores para evitar a reprodução de estereótipos já presentes na história do cinema. “É preciso conhecer o cinema e aquilo que veio antes de nós”, afirma.

O cineasta também questiona a ideia de que o cinema, por si só, seja capaz de provocar mudanças na sociedade. Para ele, o impacto das produções depende de sua circulação e de sua chegada ao público. Além de criar uma consciência coletiva, gerar novas ideias e provocar questionamentos, o cinema tem o potencial de questionar o status quo e estimular reflexões, inclusive em pessoas que já possuem uma visão mais desconstruída. Assim, como afirma Erik, quanto mais pessoas o filme alcançar, maior será sua possibilidade de gerar impacto.

“Chegamos a determinado momento em que acreditamos já ter construído muitos conceitos e ideias sobre questões como sexualidade e gênero. Ainda assim, podemos assistir a um filme e perceber que ele mudou algum pensamento nosso. Essa é uma fala muito potente: reconhecer que um filme, que o cinema, provocou uma mudança na nossa maneira de pensar. Acredito que essa experiência também pode ser muito significativa para outras pessoas.”

— Erik Ely, cineasta independente de Goiás.

Como forma de ampliar o alcance do cinema independente, Erik Ely destaca a importância de compreender o público para o qual cada produção é direcionada. Para o cineasta, o aspecto mercadológico do filme, enquanto produto, ainda é pouco discutido nesse meio. Por isso, considera necessário planejar a distribuição de acordo com as características da obra, levando em conta fatores como a classificação indicativa, que pode influenciar os espaços de exibição e os públicos que terão acesso à produção. Além do planejamento da distribuição, a divulgação também é importante para aproximar os filmes dos espectadores. Maksuel Matheus destaca o papel das redes sociais nesse processo e aponta o Instagram e o YouTube como ferramentas importantes para divulgar as produções independentes e ampliar seu alcance.

Na visão de Maksuel, o fortalecimento do cinema independente goiano depende de maior investimento dos governos estadual e municipal no setor audiovisual. O cineasta defende a criação de mais editais e leis de incentivo à produção, além do apoio à realização de festivais e cineclubes, para ampliar as oportunidades de exibição e aproximar os filmes do público. Para ele, “a gente precisa de mais oportunidades, mais políticas públicas que permitam que nossa história seja produzida, seja exibida e seja reconhecida dentro e fora de Goiás”. Segundo Maksuel, esses investimentos também podem contribuir para divulgar a cultura e a diversidade do estado, fortalecer a identidade cultural da população, atrair turistas e movimentar a economia local.

E sob o olhar de quem consome?

“Eu não tenho costume de assistir filmes independentes”. A frase, dita por Géssica Soares durante o grupo focal realizado pela equipe da reportagem, resume um dos pontos mais recorrentes entre os goianos ouvidos para esta reportagem: o cinema independente produzido no estado existe, mas nem sempre é visto, ou até conhecido, por quem mora nele.

A presença da temática LGBTQIAP+ em um filme é um fator que gera interesse em muitas pessoas da comunidade. “Eu tô muito cansado de sempre assistir os filmes e só ter personagens héteros, meio que eu cansei muito e hoje em dia eu só assisto filmes LGBTs”, relata Gabriel Afonso.

“Quando eu sei que um filme é LGBT eu fico com mais vontade de assistir”, afirma Géssica Soares.

Mas quando falamos de cinema independente LGBTQIAP+ produzido em Goiás, as mesmas pessoas que gostam da temática não conseguem mencionar uma grande variedade de exemplos. Como dito anteriormente por Thaís Oliveira, há um cenário ativo de produção de filmes com essa temática no estado, mas existe uma grande dificuldade de fazê-los chegar até as pessoas.

Na roda de conversa realizada presencialmente pela equipe, os participantes também chegaram ao consenso de que a dificuldade de acesso aos filmes independentes é a principal barreira. Para Hayane Bonfim, a facilidade de assistir a filmes grandes comerciais em um stream acaba vencendo no dia a dia. “Então tem mais essa questão de como está a minha disponibilidade, se eu tenho disponibilidade para me deslocar até o Cine Cultura para assistir um filme, porque minha casa não é tão perto assim”.

Durante o grupo focal, os participantes também apontaram que costumam consumir com muito mais frequência as grandes produções comerciais, que são disponibilizadas em muitas sessões nos cinemas e nas plataformas de streaming.

“Eu acho que eu costumo assistir mais filmes grandes ou comerciais, porque, querendo ou não, o acesso é mais palpável, por assim dizer. Porque geralmente a gente acha no cinema e eu acho mais fácil de encontrar”, comenta Gabriel Afonso.

Além disso, grandes filmes alcançam muitas pessoas e geram muitas discussões. Mariana Xavier, participante do grupo focal, comentou como isso interfere no seu interesse em assistir alguma obra.

“Geralmente a curiosidade de ver o que as pessoas estão achando, o que eles estão discutindo sobre determinada obra me faz querer assistir. E normalmente são filmes comerciais”, afirma Mariana Xavier.

“Ver todo mundo comentando dá até um pouco de fomo. Tipo: ‘Nossa! Está todo mundo vendo esse filme, só eu que não vi até agora, preciso ver’”, complementa Samanta Nascimento.

Assim como as participantes do grupo focal, os membros da roda de conversa também perceberam a importância das redes sociais para despertar interesse e conseguir acesso aos filmes independentes. Daniela Letícia afirma: “Eu costumo assistir muito pelo YouTube. Geralmente os filmes independentes que eu assisto são curtas. Eu não vejo muitos filmes longas-metragens, mas eu assisto geralmente pelo YouTube. E quando é diferente, é pelo Instagram, quando a própria pessoa publica no seu perfil”.

Apesar desta pequena janela de acesso, o que prevalece é a frustração gerada pela vontade de consumir uma mídia que não se encontra praticamente em lugar nenhum. Daniela ainda diz: “É muito sobre onde acessar isso. Às vezes não tem em streamer nenhum, não está passando no cinema e quando passa na sala de cinema é um dia específico, de uma quarta-feira. E é só essa sessão e é só um horário. E aí você tem que desdobrar totalmente para conseguir acessar isso”.

O desejo de se ver nas histórias existe, mas na hora de escolher o que assistir, ganha quem está mais visível e acessível. Por isso os filmes feitos em Goiás ainda enfrentam desafios. Há produção e o que falta é caminho até quem poderia assistir.

Onde o cinema independente LGBTQIAP+ circula?

Indicação de filmes goianos, independentes e de temáticas LGBTQIAP+

Clique na capa para ver as informações completas do filme

  • Goiânia’s Punk: Trans Voices

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Lucca Brasil
    Sinopse
    Existem pessoas trans no movimento punk? Como o punk resiste em um estado brasileiro tão conservador quanto Goiás? Ele é aberto a diferentes expressões de gênero?
  • Corpos Santos

    Ano
    2026
    Direção
    Hítallo Torquato e Amanda Rosa
    Sinopse
    Em uma visão delirante, a figura de São Sebastião surge para explorar as fronteiras entre corpos, pecado e redenção através de rituais que misturam dor e êxtase, onde fé e desejo se tornam indistinguíveis e a penitência se transforma em celebração. São Sebastião, rogai por nós!
  • O Lado Que A Cidade Não Vê

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Thomas Toledo
    Sinopse
    Um curta-documentário que acompanha o cotidiano de três pessoas trans em Goiânia: Fernando, vendedor de roupas femininas; Gustavo, fotógrafo e ativista pelos direitos trans; e Cristal, estudante de dança e manicure. Ao navegarem por uma sociedade transfóbica, sexista e racista, o documentário destaca como o preconceito sistêmico impede seu acesso a empregos justos. Através de cenas íntimas e observacionais, o filme revela não apenas suas lutas, mas também sua perseverança e dignidade na busca por sustento.
  • Eu não nasci para isso.

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Erik Ely
    Sinopse
    O alistamento militar obrigatório traz consigo uma determinação inescapável, forçando muitos jovens a servir contra a sua vontade. Mas certos alistamentos são permeados por um complexo jogo de forças, que envolve desejos e preconceitos, em relação aos recrutados que apresentam comportamentos fora dos padrões normativos do ponto de vista social, racial e sexual.
  • O Brilho Que Você Tem

    Ano
    2026
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Thais Oliveira, Larissa Melo
    Sinopse
    Um documentário de longa-metragem que explora as experiências vividas pela comunidade LGBTQIAPN+ em Goiás através de relatos íntimos sobre identidade, pertencimento e resistência. O filme examina os fios condutores que conectam essas jornadas pessoais, bem como os desafios impostos pelo preconceito e pela invisibilidade. Através de histórias de amor, resiliência e confronto, o documentário celebra a luz única de cada indivíduo e o poder coletivo de existir, pertencer e reivindicar espaço na cidade.
  • Antes de Falar de Amor

    Ano
    2024
    Direção
    João Carvalho
    Sinopse
    Depois de 10 anos de silêncio, um grupo de jovens universitários no interior de Goiás tenta reviver o movimento LGBT+ na cidade.
  • Para Carlos

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Carlos Cipriano
    Sinopse
    Você partiu sem me dar a chance de me despedir. Só agora, viajando sozinha para longe de Goiás, é que consigo dizer adeus. Por isso, estou escrevendo esta carta.
  • O Conto da Bixa

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Stella de Eros dos Santos da Silva, Karvalio
    Sinopse
    Nas encruzilhadas das noites goianas, no íntimo de cada um, ocorrem as descobertas. Corpos trans criam suas próprias tecnologias e se acolhem em suas vivências. É nesse ambiente que se constrói a comunidade Ballroom: um verdadeiro significado de família, unindo potências, existências e artes.
  • Livas - Do Viés ao Godê

    Ano
    2024
    Gênero
    Documentário
    Direção
    Reider Augusto
    Sinopse
    Cláudio Livas é um renomado figurinista de Goiânia cuja vida foi marcada por uma série de contratempos devastadores antes de se estabelecer profissionalmente, incluindo seu divórcio, a falência de seu antigo ateliê e a morte de sua mãe. Este documentário traça a trajetória de Livas e como ele reconstruiu sua vida, inspirado por dois de seus maiores ícones: sua mãe e a atriz e cantora americana Cher.
  • Tempo Rubato

    Ano
    2025
    Gênero
    Romance - Drama
    Direção
    Lucca Brasil
    Sinopse
    O que você faria se, apenas após a morte do seu marido, do seu pai ou do seu melhor amigo, descobrisse que ele amava outro homem? “Tempo Rubato” é uma história sobre dois processos de luto: o de Ravi, que perdeu seu primeiro amor para a violência policial, e o de Dora e Edu, que perderam, respectivamente, seu marido e seu pai. Tiago, amigo de infância de Ravi, visita a família após o funeral e traz consigo duas caixas repletas de vídeos que Ravi gravou ao longo de sua juventude — incluindo uma video-carta de despedida para sua família, na qual ele revela o segredo que guardou durante toda a sua vida.
  • Rádio Russo

    Ano
    2022
    Gênero
    Drama
    Direção
    Lucca Brasil
    Sinopse
    Por que sofremos tanto se somos apenas uma pulga nas costas da Via Láctea? É isso que Erika quer descobrir. Ela é uma adolescente com transtorno de ansiedade generalizada e, à medida que cresce, percebe que não se encaixa nas normas sociais e vive dia após dia em angústia, tentando descobrir sua própria personalidade. Por isso, ela cria um podcast para entender o que está sentindo.
  • Lusco-Fosco

    Ano
    2024
    Gênero
    Animação
    Direção
    Murilo Ribeiro
    Sinopse
    A animação Lusco-Fusco, conta a história de dois personagens gays, que tem visões diferentes do mundo a partir de suas respectivas realidades. Mas que através do amor, mostram que tudo pode ser mais “colorido”.

Apesar da ampliação dos debates sobre diversidade e representatividade no audiovisual, a divulgação de filmes independentes de temática LGBTQIAP+ ainda é limitada. Muitas dessas produções não chegam a grandes redes de exibição e dependem de outras iniciativas, como festivais, mostras, cineclubes, universidades e centros culturais para encontrar esses espectadores. Além disso, esses espaços não funcionam apenas como locais de exibição, mas também como ambiente de encontro, debate e reconhecimento, que transformam a exibição em um espaço de diálogo e participação.

Em Goiás, algumas iniciativas têm contribuído para aumentar a circulação dessas obras e aproximá-las dos espectadores. Uma das principais é o Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás, ou mais conhecido como DIGO. Criado em 2015, o festival realiza mostras competitivas e paralelas, exibe produções nacionais e internacionais e abre espaço para filmes goianos. Além das sessões, promove oficinas de produção audiovisual, performances, palestras e debates sobre gênero, sexualidade, direitos humanos e diversidade.

Ao reunir atividades formativas e exibições, o DIGO amplia o contato do público com realizadores independentes e estimula a reflexão sobre os temas apresentados nas obras. O festival também contribui para a formação de novos espectadores e profissionais, já que oferece oportunidades de aprendizado, troca de experiências e divulgação para produtores que encontram dificuldades para inserir seus filmes no circuito comercial.

Outra iniciativa é a Mostra Goiana de Curtas, que contribui para a divulgação e a valorização de produções audiovisuais realizadas em Goiás. Ao reunir filmes de curta-metragem de diferentes gêneros, estilos e temáticas, a iniciativa amplia o acesso do público ao cinema produzido no estado e oferece visibilidade a realizadores que nem sempre conseguem inserir suas obras no circuito comercial.

As universidades também exercem um papel importante na circulação do cinema independente. Por meio de cineclubes, projetos de extensão, laboratórios e mostras, essas instituições oferecem sessões que promovem debates, aproximam estudantes, realizadores e a comunidade externa. Diferentemente das salas comerciais, os cineclubes tendem a trabalhar com produções de menor circulação, filmes experimentais, documentários, curtas-metragens e obras que debatam questões sociais, políticas e identitárias.

Na Universidade Estadual de Goiás (UEG), o curso de Cinema e Audiovisual mantém iniciativas voltadas à exibição de filmes e à formação de público. Entre elas está o Cineclube Laranjeiras. O cineclube trabalha com curadoria e produção audiovisual, além de contribuir para a formação dos estudantes. As sessões possibilitam que os alunos tenham contato com diferentes linguagens cinematográficas e participem de processos de seleção, organização e mediação de debates.

A Universidade Federal de Goiás (UFG) também possui iniciativas, como o Cineclube Ser-Tão, ligado ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade. O projeto utiliza o cinema como ferramenta de reflexão sobre gênero, sexualidade, direitos, desigualdades e experiências de grupos socialmente marginalizados. O cineclube já realizou sessões sobre lesbianidades, visibilidade LGBTQIAP+ e direitos sociais.

Outro cineclube presente na UFG é o Cineclube Mãe d’Ouro, um projeto do coletivo Magnífica Mundi com foco em um cinema mais popular, unido e reflexivo. As atividades também promovem a troca de conhecimentos e contribuem para a construção de um repertório visual entre os participantes. Além disso, o Cineclube Mãe d’Ouro busca divulgar obras que raramente chegam às salas comerciais, ampliando o acesso a diferentes perspectivas e fortalecendo a diversidade e a inclusão no cinema.

Participantes assistem a uma sessão do Cineclube Mãe d’Ouro em uma sala decorada, enquanto duas pessoas ficam em pé à frente do telão
Sessão do Cineclube Mãe d’Ouro. Foto: acervo pessoal do cineclube.

Para Beatriz Ohana, organizadora de um cineclube independente atuante em Goiás, a exibição de produções com temática LGBTQIAP+ é importante porque permite que o público se reconheça nas narrativas apresentadas:

Super importante porque essa temática toca na camada social de identificação, o que falta muito no cinema convencional, em que a comunidade LGBTQIAP+ fica sem muitas alternativas de filmes sendo a maioria sobre narrativas heteronormativas. Cabe aos cineclubes, mostras e festivais independentes abrirem essa janela de exibição. Se tratando especificamente de cineclubes ainda traz a camada do compartilhamento, das trocas entre encontros gerando vínculo e fortalecendo laços entre a comunidade que participa do cineclube.

— Beatriz Ohana, cineclubista.

O apoio de editais públicos também é fundamental para que festivais e mostras possam ser realizados. Em Goiás, os editais do Fundo de Arte e Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc contemplam projetos de difusão cultural, incluindo festivais, mostras e feiras audiovisuais. Embora nem todos sejam voltados à temática LGBTQIAP+, esses mecanismos podem financiar sessões gratuitas, atividades de formação, circulação de filmes, divulgação e premiações.

As iniciativas existentes mostram que a visibilidade do cinema independente LGBTQIAP+ depende de uma rede de colaboração entre realizadores, festivais, universidades, instituições culturais, poder público e comunidade. Mais do que divulgar filmes, essas ações ajudam a preservar memórias, fortalecer artistas e garantir que diferentes experiências de vida estejam presentes nas telas. Em Goiás, o crescimento e a continuidade desses projetos podem ampliar o consumo dessas produções e consolidar o estado como um espaço importante de circulação do cinema da diversidade.

Rolar para cima