Saúde mental de pessoas trans em Goiás

O 5º estado que mais mata essa população no país

Por Ana Luisa Freitas, Gabrielle Lopes, Laura Cáceres, Luana Sampaio e Renato Cândido

Publicado em 15/08/2026

“Se o Brasil pretende se afirmar como um país soberano, precisa começar reconhecendo a barbárie que promove nas favelas, nas esquinas, nos becos, nas manchetes e nos corpos trans que insiste em violar. Brasil soberano é país sem transfobia, racismo e misoginia.”

Dossiê assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025

O desenvolvimento da saúde mental é diretamente moldado pelo nível de segurança e pela garantia do direito básico à vida. Em Goiás, os grandes índices de violência letal contra pessoas trans e travestis revelam um cenário de insegurança que atua com grande potencial no adoecimento psíquico e na ansiedade social dessa população. A gravidade desse panorama é confirmada por dados nacionais: um estudo realizado em 2025 pelo Sistema de Vigilância de Violência do Ministério da Saúde analisou 37.104 notificações de violências interpessoais e autoprovocadas contra travestis, mulheres trans e homens trans entre os anos de 2025 e 2022.

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a Região Centro-Oeste ocupa a terceira posição no ranking nacional de assassinatos de pessoas trans e travestis no Brasil.

Dentro desse mapa da violência regional, o estado de Goiás apresentou um disparo alarmante nos dados recentes: enquanto em 2024 o estado ocupava o 16º lugar no ranking nacional, com 2 homicídios registrados, em 2025 Goiás saltou para a 5ª posição do país, acumulando 5 assassinatos mapeados pela entidade.

Essa aceleração recente não é um ponto fora da curva, mas revela um processo histórico de vulnerabilização. Na soma entre 2017 e 2025, Goiás registrou 43 assassinatos de pessoas trans, marca que consolida o estado no grupo das dez regiões mais letais para essa população em todo o Brasil.

Estatísticas sobre homicídios representam a tolerância máxima e irreversível da transfobia, mas suas marcas permanecem e se alastram pela saúde mental daqueles que sobrevivem. A ameaça constante de violência física, o medo do espaço público e a impunidade alimentam o chamado “Estresse de Minoria”, o estado crônico de tensão psicológica que sobrecarrega o sistema nervoso, eleva os índices de depressão e isolamento social, e frequentemente resulta em quadros graves de ideação suicida e automutilação.

Quando o direito à integridade física é ameaçado, a busca por acolhimento psíquico deixa de ser uma medida preventiva e passa a ser um meio indispensável. É diante dessa realidade que a população trans goiana tenta acessar uma rede pública de saúde mental que, além de altamente centralizada na capital, precisa lidar com a urgência de acolher vidas atravessadas pelos traumas contínuos da violência.

Diagnóstico e Acolhimento: A visão dos profissionais da saúde

No estado de Goiás, a falta de representatividade, o conservadorismo e a fragilidade da rede de apoio familiar podem ampliar a vulnerabilidade da população trans e travesti. A psiquiatra Fernanda Coelho, especialista em saúde mental, aponta que o estado de Goiás tem tentado criar novas políticas para atender essas comunidades, mas ainda há muito a melhorar. “Apesar de estarmos caminhando para isso, ainda existe um preconceito muito forte no Estado de Goiás e, infelizmente, nos meus estudos recentes, o que eu tenho visto é que Goiás ainda está muito atrás de outros estados nesse tipo de cuidado”, afirma a profissional.

Fernanda Coelho, psiquiatra
Fernanda Coelho, psiquiatra · Acervo pessoal

Nesse contexto, o acompanhamento de profissionais da saúde mental é fundamental para a manutenção da saúde mental dessa comunidade. É o que observa o psicólogo clínico João Victor Soares Ferreira, especialista em sexualidade humana e membro do grupo de trabalho voltado para gênero e sexualidade pelo CRP de Goiás: “O que eu percebo mais é que são pessoas com, muitas vezes, pouca rede de apoio, que acabam não tendo recursos sociais aos quais elas possam recorrer diante do adoecimento e que ficam marginalizadas mesmo dentro da própria comunidade.”

João Victor Soares Ferreira, Psicólogo clínico · GT Gênero e Sexualidade, CRP-GO
João Victor Soares, psicólogo · Acervo pessoal

A psiquiatra Fernanda ressalta ainda a importância de deixar claro que não é a incongruência de gênero que causa o sofrimento, e sim a rejeição e a violência que essas pessoas vivem diariamente. “Elas, infelizmente, acabam estando mais suscetíveis a alguns transtornos e sofrimentos mentais que são muito frequentes nesse grupo de pessoas, que é um grupo que sofre abuso, violência, preconceito e discriminação.” Por conta disso, há alta recorrência de transtornos depressivos, tristeza persistente, isolamento, desesperança, distanciamento social e ideação suicida, transtornos de ansiedade, preocupação excessiva, hipervigilância, crise de ansiedade, transtornos relacionados ao trauma e muitos outros.

O preconceito pode aparecer em diferentes espaços da sociedade, como a família, a escola, o mercado de trabalho e os serviços de saúde, além de poder aparecer por meio de ofensas, desrespeito ao nome e ao pronome, exclusão social, violência física e dificuldade de acesso a oportunidades. No cotidiano, o preconceito também pode ser silencioso, manifestando-se na recusa em reconhecer a identidade da pessoa ou na exposição involuntária de sua história.

A discriminação também pode partir dos profissionais de serviços de saúde mental. Embora psicólogos e psiquiatras tenham o dever profissional de acolher, respeitar e proteger os pacientes, ainda existem situações em que as pessoas trans são tratadas com preconceito, desinformação ou falta de sensibilidade durante o atendimento. Por isso, segundo o psicólogo clínico João Victor: “O profissional precisa ter compreensão do cenário onde ele está, do caso que ele está atendendo, mas também estar a par do que o conselho dele vem propondo.”

São poucas as pessoas que realmente têm acesso aos serviços de psicologia ou psiquiatria no Estado, muito pela falta de políticas públicas, ou por condições financeiras que não permitem acessar os serviços privados, como afirma João: “A saúde deixou de ser um direito e acabou se tornando um privilégio no nosso país.”

Para Fernanda Coelho, o avanço das políticas públicas em Goiás precisa passar pelo fortalecimento da atenção primária, pela capacitação clínica dos profissionais e pela descentralização dos serviços especializados:

“A pessoa trans não deveria precisar chegar a um serviço altamente especializado para conseguir um atendimento básico de saúde mental.”

Fernanda Coelho, psiquiatra

A profissional ainda reforça que o foco das políticas públicas deve estar nas condições sociais que produzem sofrimento, como preconceito, violência e discriminação. “A identidade de gênero não é um transtorno mental e o papel da psiquiatria é tratar os transtornos que coexistem com essa relação”, afirma.

Transfobia institucional

Ao se falar da experiência de pessoas trans e travestis é preciso compreender os marcadores sociais que atravessam as vivências dessas comunidades. Gênero, raça, classe social e acesso a direitos são marcadores que se conectam e causam diversas formas de exclusão e violência. A historiadora e antropóloga Yordanna Lara Rêgo explica sobre isso:

“Além de terem que enfrentar toda essa resistência às suas identidades de gênero, elas têm que enfrentar todos os marcadores que o racismo produz. E isso faz com que elas sejam levadas à margem da sociedade.”

Yordanna Lara Rêgo, antropóloga
Yordanna Lara Rêgo, antropóloga
Yordanna Lara Rêgo, antropóloga · Acervo pessoal

Yordanna Lara Rêgo é historiadora e antropóloga; ela trabalha o termo médico da “transsexuaidade”, que consiste na interseccionalidade entre raça e identidade, pensando pessoas trans e travestis negras, principalmente em Goiás.

Esses desafios acabam resultando em fatores como exclusão escolar, familiar, no mercado de trabalho e gerando barreiras para o acesso à saúde. A partir dessa perspectiva, a antropóloga comenta sobre saúde mental. Para ela, o sofrimento psíquico da população trans e travesti também é algo que pode ser analisado isoladamente — ele deve ser compreendido a partir das experiências de rejeição, violência e exclusão que antecedem o acesso aos serviços de saúde.

Para Yordanna, o modelo de atendimento médico ainda está muito focado na patologização das identidades trans, por isso é preciso que as instituições estejam preparadas para receber essas pessoas. Além disso, é necessário que a lei de proteção a essas pessoas saia do papel e realmente seja implementada no cotidiano dessa população.

“Como você vai acessar políticas de saúde que te ajudem na transição e ter um apoio psicossocial real se as políticas públicas são, neste momento, uma ferramenta quase contra essas pessoas? Está ali dizendo: ‘Olha, vocês têm muitos direitos já conquistados’, porém eles não funcionam, não na medida em que deveriam funcionar, senão o Brasil não seria o país número um em número de mortes de pessoas trans e travestis.”

Yordanna Lara Rêgo, antropóloga

Mas quem poderia nos contar essa história?

Lucca Brasil Santos é diretor de cinema, não-binário, e costuma envolver temáticas trans em suas obras. Suas produções são responsáveis por tratar do universo de pessoas trans e envolvê-lo com a estética do estado de Goiás, promovendo a identificação que lembra constantemente a existência da população trans no estado. Um de seus exemplos é o curta “O Punk Goiano: Vozes Trans”. O filme conta sobre a história do movimento punk na cidade de Goiânia e questiona o pertencimento de pessoas trans nesse espaço. Lucca, além de abordar a temática, também reflete a necessidade de pessoas trans nas equipes e a representação das identidades trans no audiovisual.

Lucca Silva Brasil, diretor de cinema
Lucca Brasil · Acervo pessoal

“Meus filmes têm atores trans, personagens trans e equipe trans, também. Isso é uma coisa que eu não abro mão nunca. […] Olha, sem considerar novela, série, documentário aqui no Brasil, eu acho que deve ter uns três filmes de ficção, longa-metragem, com protagonismo trans. […] Eu nunca vi um filme brasileiro sobre um homem trans, nunca vi um filme brasileiro sobre uma pessoa não-binária, trans-masculina. Isso em longas de ficção, com certeza existem vários curtas, principalmente, recentemente, eu acho que tem muito curta universitário e independente.”

Lucca Brasil

O trabalho desempenhado por Lucca é notável na realidade, tendo em vista que grupos marginalizados não são prioridade de representação na mídia convencional. O exemplo real disso é o relato de Molzer. Travesti, vice-presidenta da União Estadual dos Estudantes e secretária nacional do Coletivo Quilombo, explica como foi difícil o seu processo de entendimento por falta de referências acessíveis.

Molzer Felix
Molzer Felix · Acervo pessoal

“Acho que é interessante contar que durante muito tempo eu não me identificava enquanto travesti, porque eu sequer sabia que travesti existia enquanto possibilidade de o corpo existir, não sabia que existia travesti. E aí eu me colocava em outro local, e aí conforme a gente vai entendendo as coisas, a gente vai avançando e amadurecendo as nossas percepções — é sempre bom lembrar como é importante o papel da representatividade, o papel de você conhecer pessoas diferentes, e acima de tudo você ter respeito aos processos de cada pessoa, de se amadurecer, de se reconhecer, de se entender enquanto ser humano, sobretudo.”

Molzer Felix

Para Molzer, o processo de se reconhecer como travesti também envolve lidar diariamente com as expectativas impostas sobre o gênero e com a necessidade de ser reconhecida de acordo com quem é. “Acho que é bom lembrar que o gênero é um conflito social, ele vai mudar de tempo para tempo, mas sobretudo ele tem como característica moldar como que nós e as outras pessoas vamos nos comportar. E por conta disso o gênero vai impactar na nossa vida, na forma como a gente se veste, como a gente se apresenta e sobretudo na forma como somos reconhecidas nos lugares em que nós ocupamos”, explica. Segundo ela, todos esses fatores criam freneticamente uma preocupação constante sobre a maneira como será vista e aceita pela sociedade. A mesma sensação também se manifesta na trajetória de Lucca, que resume esse conflito em uma palavra: medo. “Então, eu acho que o meu principal desafio emocional, assim, ligado ao meu contexto, é medo de não ser aceito, de não ser compreendido, de não fazer as coisas que eu quero fazer, as mudanças que eu quero fazer.”

Parte desse desgaste emocional também se manifesta na necessidade constante de combater e/ou lidar com a transfobia, no dia a dia, em diferentes espaços, e sentindo tudo isso de forma tão pessoal. A falta de acolhimento se potencializa quando não há rede de apoio, o que torna mais difícil a construção de relações e pertencimento.

Nesse cenário, a solidão não é apenas emocional, mas também estrutural, já que a ausência de vínculos faz com que a própria permanência em determinados espaços se torne um exercício constante de adaptação. Mesmo em espaços considerados progressistas, como a universidade, esse cenário se repete: segundo Molzer, pessoas trans ainda precisam relatar repetidamente suas experiências de violência para conseguir validação e algum tipo de amparo institucional, como se a legitimidade de suas dores dependesse da repetição exaustiva do sofrimento. “É como se a gente o tempo todo revitimizasse as pessoas, [lembrando] que existe transfobia, para que elas constantemente estivessem tendo que se validar enquanto pessoa trans. E isso é o que mais acontece na academia”, explica Molzer Felix.

Essa dificuldade de encontrar acolhimento também aparece quando pessoas trans procuram ajuda e encontram mais um espaço de insegurança. Lucca conta que já passou por profissionais de saúde transfóbicos e mal-educados, experiências que, segundo ele, afastam ainda mais as pessoas do atendimento. “Os profissionais não costumam ter letramento nas minhas questões, que eu preciso conversar sobre. Eu já visitei vários profissionais de saúde que foram transfóbicos, que foram mal educados, e na saúde mental isso mais atrapalha do que ajuda.”

Na perspectiva de Molzer, o debate sobre saúde mental não pode ser separado das condições em que pessoas trans vivem:

“A gente tem o melhor ambiente, o melhor serviço transsexualizador do SUS é no estado de Goiás. O estado de Goiás é exemplo nacional, junto com São Paulo, na aplicação do processo transsexualizador do SUS. Mas, no entanto, a gente não tem uma rede de atenção psicossocial que atenda todas as pessoas. Mas aí é um problema, não apenas as pessoas trans, mas todas as outras pessoas […] E aí, quando a gente fala sobre pessoas trans específicas, é muito comum que você encontre a maior parte da minha população em estado de adoecimento mental. Porque essas pessoas, muitas vezes, estão em insegurança alimentar, estão sem emprego, estão sem moradia, é muito comum e a demanda é muito alta para morar […] É bom lembrar sobre como o nosso meio molda até mesmo o estado de nossa saúde.” — Molzer Felix

Em contraste com as experiências de desgaste, Lucca mostra como o apoio pode transformar diretamente a relação de uma pessoa trans com os espaços que ocupa. Para ele, ter família, amigos e pessoas de confiança por perto fez com que deixasse de temer determinados ambientes e contribuísse positivamente com a própria saúde mental. “Eu acho que mudou muito minha relação com o mundo, perceber que eu tinha esse apoio, perceber que eu não tinha que temer nos lugares que eu frequento.”

Transviver e outros serviços especializados

A Rede de Atenção Psicossocial promove o atendimento de pessoas trans no fluxo geral, com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Equipe Multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (eMulti). E, em Goiânia, esse serviço também ocorre por meio do Ambulatório Transviver, que é especializado em atender pessoas trans e travestis. Ele conta com cuidados focados na saúde, com acompanhamento médico, de enfermagem, psicológico e assistência social.

De acordo com Tulyanne Alves da Silva, enfermeira e gerente da atenção especializada, o Ambulatório Transviver conta com profissionais da saúde especializados e capacitados para atender as demandas do público transsexual. “Há dois anos, ocorreram capacitações e reuniões com o HGG e com ambulatórios mais antigos como ARPAGESC (Ambulatório Regionalizado do Processo de Afirmação de Gênero) de Senador Canedo, com o intuito de capacitar a equipe”, afirma.

No ambulatório, está ocorrendo a elaboração da chamada Linha de Cuidado Integral, que visa sedimentar as práticas da equipe, como chamar a pessoa que ainda não possui nome social pela data de nascimento, além de promover discussões acerca de temas da saúde trans. Segundo a gerente do Transviver, algumas das principais demandas do ambulatório incluem o desejo de terapia hormonal, desejo de procedimento cirúrgico, melhora da disforia e melhora da saúde mental. Ela explica também como cenários de transfobia e demais violências podem impactar na saúde mental dessas pessoas, causando aumento da ansiedade e/ou piora da depressão, dificuldade sócio-financeira pela condição de ser trans ou travesti e dificuldade em manter uma saúde mental estável.

Tulyanne Alves
Tulyanne Alves, gerente do Ambulatório Transviver · Acervo pessoal

“As pessoas trans e travestis compreendem uma população historicamente marginalizada e discriminada por partes importantes da sociedade.”

Tulyanne Alves, Ambulatório Transviver

Entre as dificuldades para garantir um atendimento contínuo e adequado, a gerente afirma que “o ambulatório tem observado que o principal impeditivo para a manutenção de um acompanhamento adequado tem sido o deslocamento da pessoa, em especial em horário comercial”. Por isso, está sendo implementado o serviço de teleconsulta, que funcionará antes das 8h e depois das 18h. O atendimento psicológico se torna essencial para a população, e, segundo Tulyanne Alves, os psicólogos do Transviver estão disponíveis para atender também sem agendamento, sendo comum o suporte em momentos de ansiedade e/ou depressão pós-conflito ou violência.

O atendimento é feito inicialmente por uma avaliação na Atenção Primária à Saúde (APS), com o clínico geral ou médico da família, que após fará o encaminhamento para transsexualidade na rede. Esse encaminhamento é protocolado no sistema da regulação e o paciente é regulado para a primeira consulta com a médica responsável pelo Ambulatório Transviver, doutora Ana Luiza de Lima. Atualmente, o serviço não possui uma fila de espera. O ambulatório está localizado na UPA do Jardim Novo Mundo.

A médica e responsável técnica do ambulatório, Ana Luiza, comenta sobre o avanço que o Transviver representa para a população de Goiânia, considerando como era o atendimento de saúde mental para essas pessoas há 30 anos atrás.

“Ter o ambulatório Transviver para a população trans e travesti é um enorme avanço, gigantesco, porque a população passa a ter acesso a psicólogos que trabalham nessa área. […] Não é mais aquele profissional que às vezes nunca ouviu falar sobre o assunto. É um profissional que trabalha com isso todo dia.”

Ana Luiza, médica e técnica do Ambulatório Transviver

Ela ressalta ainda que, apesar de tudo, ainda tem muita coisa a avançar. “A gente sempre quer mais psicólogos, a gente quer incluir o psiquiatra, porque o psiquiatra atualmente está disponível, mas está no CAPs”.

O direito básico de existir: o papel da Defensoria Pública

Para a população trans, o acesso à saúde mental não depende apenas da oferta de psicólogos e psiquiatras. O reconhecimento da identidade, o respeito ao nome e ao gênero e a possibilidade de receber atendimento sem discriminação também fazem parte desse cuidado. É nesse campo que atua a Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO), como instituição responsável por orientar juridicamente, acolher pessoas em situação de vulnerabilidade e cobrar do poder público a efetivação de direitos.

Embora não seja a porta de entrada do processo transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS), a Defensoria acompanha situações em que o acesso é interrompido ou demora mais do que deveria. De acordo com Tairo Esperança, coordenador do Núcleo Especializado de Direitos Humanos (NUDH) da DPE-GO, as principais reclamações relacionadas ao processo transexualizador envolvem o tempo de espera, principalmente para a realização de cirurgias, e o valor cobrado para a realização.

Tairo Esperança
Tairo Esperança, coordenador do NUDH · Acervo pessoal

Segundo Tairo, o Estado ainda não possui uma lei de gratuidade para esse procedimento, o que resulta em uma privação de um direito fundamental das pessoas transexuais em Goiás. “Os cartórios são obrigados a cobrar, e o custo é alto, estamos falando de R$ 300 para fazer a normação, mais a segunda via da certidão de nascimento, que deve custar uns R$ 70, mais a segunda via da certidão de protesto, que vai ser mais uns 50, 70 reais”. Ele ressalta que os assistidos da Defensoria Pública não têm condições de custear esse processo.

A falta de acesso à hormonioterapia também chega ao NUDH. Segundo Tairo, a demanda é mais frequente entre homens trans, que dependem de medicamentos mais caros e sujeitos a regras específicas de controle. Em casos assim, a Defensoria tenta resolver a situação administrativamente e, quando necessário, recorre à Justiça. O coordenador afirma que ações anteriores fizeram com que municípios passassem a adquirir os medicamentos para garantir o tratamento.

Na área da saúde mental, a atuação ocorre principalmente por meio da articulação com a Rede de Atenção Psicossocial. A Defensoria pode encaminhar a pessoa para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo, requisitar acolhimento humanizado e acionar defensorias especializadas em saúde quando há necessidade de medicamentos ou outros serviços. “Assistência jurídica não é só assistência judiciária. Não é só entrar com uma ação”, explica Tairo. Para ele, o trabalho também envolve facilitar o acesso a serviços públicos, acompanhar denúncias e cobrar respostas das instituições responsáveis.

Esse encaminhamento se torna necessário porque, segundo o coordenador, nem sempre os serviços estão preparados para atender pessoas trans. O uso de pronomes inadequados, o desconhecimento sobre as necessidades específicas dessa população e o preconceito podem afastar usuários da rede pública. “A pessoa tem especificidades, é igual a você e, portanto, você tem que garantir os direitos dela”, afirma.

A Defensoria também atua em casos de violência e transfobia. Quando recebe um relato, pode encaminhar a denúncia à Delegacia Estadual de Atendimento Especializado e ajudar a pessoa a obter informações sobre a investigação. Em situações de extrema vulnerabilidade, o órgão pode acionar diferentes instituições ao mesmo tempo. Tairo cita o caso de uma pessoa trans em Anápolis que teria sido mantida em situação semelhante à escravidão. Após uma denúncia feita pelo Disque 100, foram mobilizados órgãos como o Ministério do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho e a Polícia Federal.

Outra frente é a retificação de prenome e gênero. Tairo estima que o Núcleo de Direitos Humanos tenha realizado mais de 500 atendimentos desde a sua criação, além dos casos acompanhados pelos núcleos de atendimento inicial e pelas defensorias cíveis. Os mutirões são organizados em parceria com ambulatórios e entidades da sociedade civil, mas o serviço também é oferecido individualmente. A regularização dos documentos ajuda a reduzir constrangimentos em hospitais, escolas, entrevistas de emprego e repartições públicas, situações que podem agravar o sofrimento psíquico e afastar pessoas trans dos serviços essenciais.

Canais de Acolhimento em Goiás

O desenvolvimento de uma nova perspectiva para a saúde mental de pessoas trans em Goiás é algo urgente, e por isso, novas instituições e fluxos de atendimento construídos nos últimos anos surgem como alternativas para suprir as demandas dessa população. Movimentos sociais, núcleos de direitos humanos e frentes inovadoras dentro das próprias universidades e secretarias de saúde vêm criando modelos de acolhimento que rompem com a lógica patologizante do passado. Essas novas iniciativas não apenas oferecem suporte psicológico e psiquiátrico com pautas de gênero bem qualificadas, mas também atuam na formação de profissionais e na cobrança do poder público para que o cuidado psíquico seja descentralizado e chegue ao interior do estado com a devida dignidade.

No Estado de Goiás, a população trans e travestis pode encontrar apoio e acolhimento em:

HGG — Serviço de Identidade de Gênero, Transexualidade e Intersexualidade (Ambulatório TX)

Atendimento médico e multiprofissional a pessoas transexuais, travestis e outras identidades de gênero; acompanhamento clínico, hormonoterapia, Psicologia, Psiquiatria, Ginecologia, Urologia, Cirurgia Plástica e Fonoaudiologia. Também realiza acompanhamento pré e pós-operatório e procedimentos do processo transexualizador, conforme indicação e regulação.

Hospital Estadual Alberto Rassi — HGG, Rua 1, nº 60, Setor Oeste, Goiânia.
Telefone geral do gestor/unidade: (62) 3209-9700 · contato@idtech.org.br

CREAS Goiânia

Atendimento especializado e continuado a pessoas e famílias em situação de ameaça ou violação de direitos, como violência física, psicológica, sexual, tráfico de pessoas e ruptura de vínculos. A unidade pode articular assistência social, defesa de direitos e outras políticas públicas.

CREAS Centro-Sul: Rua 104, 614, Setor Sul; (62) 3524-4605 / 3524-4607; equipecreassul@gmail.com
CREAS Leste: Av. do Ouro, Qd. 75, Lt. 4, Jardim Novo Mundo; (62) 3524-1770; equipecreasleste@gmail.com
CREAS Noroeste: Rua da República com Cláudio Manoel da Costa, Qd. 20, Lt. 32, Setor Capuava; (62) 3298-2726 / 3524-3466 / 3524-3431; noroeste.creas@gmail.com
CREAS Norte: Alameda Capim Puba, 60, Setor Centro-Oeste; (62) 3524-2113 / 3524-2147; creasnorte@hotmail.com
CREAS Oeste: Av. Sonemberg com Antônio Xavier, 1, Praça Conjunto Romildo Francisco Amaral, Setor Cidade Jardim; (62) 3524-6914; creasoeste@gmail.com

Defensoria Pública do Estado de Goiás — Direitos Humanos

Orientação e atendimento jurídico, incluindo retificação de prenome e gênero para pessoas trans maiores de 18 anos e ação judicial para acolhimento institucional de pessoas em situação de rua.

Central de Informações: (62) 3602-1224. Alameda Cel. Joaquim de Bastos, 282, Qd. 217, Lt. 14, Setor Marista, Goiânia. Segunda a sexta, 8h–18h.

Disque 100 — Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos

Recebe denúncias gratuitas, inclusive anônimas, de violações contra a população LGBT e pessoas em situação de rua; funciona 24 horas, todos os dias, e fornece protocolo. Também há canais digitais indicados pelo Governo Federal.

Disque 100. Em risco imediato, ligar também para 190.

Orgulho em Rede — Goiás

Rede/portal ativo voltado à população LGBTQIAPN+ em Goiás. Reúne conteúdos e encaminhamentos sobre saúde, direitos e denúncias, educação, empregos e negócios, serviços, agenda, cultura, espaços seguros e a UniTrans Goiás. Entre as iniciativas recentes estão o minicurso Trans-Criar Caminhos, sobre história, reconhecimento e proteção jurídica de pessoas trans, e a Feira Orgulho em Rede, com programação gratuita e empreendedorismo LGBTQIAPN+.

contato@orgulhoemrede.com · WhatsApp (62) 98216-3579, segunda a sexta, das 9h às 18h.
Av. Assis Chateaubriand, nº 1620, Setor Oeste, Goiânia.

O coletivo Camaleoa — Grupos de Acolhimento Terapêutico (GATs)

GAT para Familiares de pessoas LGBTQIA+ acima de 18 anos. Espaço seguro para compartilhar as preocupações, as dúvidas, os medos e também as alegrias que surgem quando esse ambiente familiar se dispõe a ser apoio para pessoas LGBTQIA+. Grupo aberto e gratuito.
Responsáveis: Vitor (62 99906-8735 · CRP 09/16622) ou Claus (62 99851-5972 · CRP 09/15453).

GAT Trans-bordar, direcionado a estudantes trans, travestis e não-bináries acima de 18 anos. Espaço seguro e acolhedor para discutir as questões atravessadas nas existências de corpos dissidentes em contexto de ensino médio, EJA ou ensino superior.
Responsáveis: Alexia (62 98122-7177 · CRP 09/013999), Anapaula (62 98156-6228 · CRP 09/15498) ou Bianca (62 98344-4914 · CRP 09/15486).

Ambulatório Transviver

Ambulatório Municipal de processo transsexualizador, localizado na UPA do Jardim Novo Mundo. Oferece atendimento multidisciplinar gratuito pelo SUS com endocrinologistas, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros para a transição de gênero.

Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 7h às 19h.
Contato: (62) 3524-5073.
Encaminhamento: o paciente maior de idade deve primeiro ir até uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Goiânia para avaliação e encaminhamento médico ao Transviver.

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