Baterias Universitárias: Do amor pelo batuque à resistência cultural

Por Ana Paula Penha, Daniela Letícia, Lívia Chimango e Nádia Sena

Mudança no perfil dos estudantes tem provocado enfraquecimento das baterias universitárias na Universidade Federal de Goiás (UFG)

Baterias e das torcidas no desafio do inter 2024; Vídeo: @ainda bem fotografia

Entre 2003 e 2026, haviam cerca de 15 baterias ativas dentro da universidade, mas durante os anos 60% ficaram inativas, ou seja, restaram apenas 6 baterias que realizam atividades e permanecem em busca de um espaço. Como alternativa contra a monotonia da rotina acadêmica, esses grupos de percussão enfrentam dificuldades para manter a tradição cultural viva dentro do campus

Tendo como principal objetivo, integrar os estudantes universitários aos movimentos culturais, as Baterias Universitárias (BU’s) ganharam popularidade na década de 1990, inspiradas pelo contexto do Carnaval e das Escolas de Samba brasileiras. Inicialmente, as baterias estavam ligadas principalmente a cursos tradicionais, como Direito e Medicina. Um exemplo é a Madrasta, bateria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). Fundada em 2003, a Madrasta é considerada a primeira bateria da universidade. Sua criação influenciou o surgimento de outras baterias em cursos como Comunicação, Odontologia, Música e Artes Cênicas, Medicina Veterinária, entre muitos outros. 

Com o passar dos anos, essa cultura se expandiu por toda a universidade, tornando-se um importante símbolo da vida acadêmica. Mais do que grupos de percussão, as BUs passaram a representar integração, identidade e sentimento de pertencimento entre os estudantes, além de marcarem presença em competições realizadas em diversas regiões do país. A cultura das baterias passou a fazer parte do processo de formação e da vivência acadêmica dos universitários.

Em uma bateria universitária, os instrumentos são divididos entre dois grupos, a cozinha e os leves. A cozinha é composta pelos instrumentos que são a base: caixa, repique e surdo. Eles guiam os leves e o andamento que está sendo tocado. Os leves são os instrumentos melódicos que acompanham a cozinha e preenchem o som: Agogô, Chocalho e Tamborim.

Bateria Universitária

Sons dos Instrumentos

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Ícone do agogô
Agogô
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Ícone da caixa
Caixa
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Chocalho
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Repique
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Surdo
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Tamborim
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Na UFG, muitas baterias surgiram como instrumentos de integração vinculados às  Associações Atlética Acadêmica (A.A.A) – entidades estudantis geridas pelos estudantes que desenvolvem atividades esportivas e eventos de integração. Eugênio Lopes dos Santos Junior, professor de Educação Física na Universidade Paulista (UNIP) e um dos fundadores da bateria Sedentária, da Faculdade de Educação Física (FEF), destaca a importância da bateria não apenas como movimento cultural, mas também como um elemento essencial para a integração e desenvolvimento dos membros das atléticas.”Era o que fazia a atlética e o esporte universitário ser diferente, era a presença da bateria. Por ser algo que agregava, que trazia quem não era atleta a participar das atividades dentro da instituição”, aponta. Por outro lado, a bateria Mafiosa, do curso de Direito da UFG, foi uma das várias que surgiram de forma independente das atléticas, valorizando o processo de construção musical, identidade visual e a integração. 

Apesar da relevância cultural e do impacto na formação dos estudantes, as baterias universitárias raramente são reconhecidas como espaços educativos dentro da universidade. Diferentemente de projetos de pesquisa, extensão ou ensino, as atividades desenvolvidas pelas baterias costumam permanecer à margem das discussões institucionais, mesmo promovendo habilidades relacionadas à liderança, organização, trabalho em equipe, gestão financeira e produção cultural. Para muitos integrantes, o aprendizado adquirido nesses grupos complementa a formação acadêmica e contribui diretamente para a vida profissional. A pró-reitora de extensão da UFG, professora Luana Cássia Miranda Ribeiro, comenta que as baterias universitárias exercem um papel que vai muito além das apresentações musicais. Segundo ela, esses grupos contribuem para a integração estudantil, fortalecem a permanência na universidade e auxiliam na formação de competências que vão além da sala de aula: “Além do aprendizado musical, o estudante aprende a lidar com o outro, desenvolve compromisso, trabalha em equipe e cria um vínculo maior com a universidade”, afirma.

Sedentária no Desafio do Inter 2016; Foto: B2 Goiânia

Lucas Gonçalves Vaiano, 28 anos, formado em Design Gráfico pela Faculdade de Americana (FAM), em São Paulo, é atualmente ritmista da escola de samba Rosas de Ouro de São Paulo. Sua trajetória começou na Mancha Verde de São Paulo, em 2017, quando tinha 19 anos, e desde então construiu uma carreira como musicista e percussionista, atuando no carnaval de São Paulo e com baterias universitárias. Segundo Lucas, participar de uma bateria proporciona um forte sentimento de pertencimento ao ambiente em que a pessoa está inserida. Isso acontece porque cada integrante desempenha um papel importante para o funcionamento do grupo, ao mesmo tempo em que estabelece conexões com outras pessoas. Para ilustrar essa ideia, ele cita uma frase do filme “Ritmo Total”, que acompanha a trajetória de uma banda marcial: “Uma banda é um som; é um pelo outro”.

Para além da questão musical, uma organização que se mantém a partir de uma diretoria gerida por diversos cargos, ajuda não só na integração e formação cultural de um indivíduo, mas profissional também. O financeiro lida com o caixa e o orçamento de eventos, a presidente com contatos gerais e a gestão de pessoas com conflitos internos e externos. Uma das fundadoras da bateria Tagarela da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Láira Machado, hoje com 33 anos, formada em Relações Públicas e especializada em Marketing, comenta como estar dentro da bateria ajudou em sua formação profissional: “Lidar com pessoas, organizar coisas, você gerir pessoas é difícil, pessoas diferentes, mas isso daí é muito rico para o mercado de trabalho, para o mundo fora da universidade. […] É muito positivo, porque relacionamento é tudo,. Relacionamento te abre portas para muitas coisas, para muitas oportunidades. Então, foi excelente para a minha formação”, afirma. 

Pandemia, isolamento e a resistência das Baterias Universitárias

Entre os anos 2000 e o início da década de 2010, as baterias universitárias viveram seu auge, reunindo grande número de integrantes, alta visibilidade e forte engajamento estudantil. Nesse período, fazer parte de uma bateria, e principalmente de uma atlética universitária, responsável pela organização de festas, jogos e ações de identidade estudantil , era uma forma de reconhecimento e pertencimento dentro da universidade. 

No entanto, a partir da segunda metade da década de 2010, começaram a surgir sinais de enfraquecimento, com a evasão de estudantes dos ensaios, dificuldades de gestão e falta de ritmistas. No início dos anos 2000 existiam cerca de 14 baterias na UFG, mas esse número diminuiu entre os anos de 2010 e 2018, conforme mostram dados levantados pela equipe. Esse processo foi intensificado pela pandemia da COVID-19, período em que as atividades presenciais foram suspensas e os espaços universitários permaneceram vazios por longos períodos devido às medidas de isolamento social. Os grupos culturais, como as baterias universitárias, que precisam de convivência, ensaios presenciais, interação e integração para se manterem ativas, passaram a enfrentar dificuldades para sobreviver nesse cenário. Durante quase dois anos de quarentena, os tradicionais encontros e apresentações deixaram de acontecer, e essa pausa enfraqueceu diversas baterias da universidade. 

Desde então, muitas baterias têm enfrentado dificuldades para atrair novos integrantes, manter seus membros ativos e preservar uma tradição que, durante décadas, fez parte da experiência universitária brasileira. Tiago Daniel, estudante de Odontologia pela UFG e ritmista da Bateria Banguela, comenta que a crise pós pandemia provocou uma redução no número de estudantes interessados em participar das atividades.  Segundo ele, no ano de 2022, pela primeira vez, a bateria se apresentou com menos de 40 ritmistas, contando cerca de 26 estudantes, um número muito abaixo do esperado. Com a entrada de novos estudantes inexperientes e a diminuição de ritmistas, a Banguela terminou o desafio como última colocada, após anos de pódio.

Bateria Banguela levando primeiro lugar no Batucadas em 2016; Foto: Layza Vasconcelos

Para a pró-reitora de extensão da UFG, Luana Cássia, o enfraquecimento das baterias não pode ser explicado apenas pela pandemia. Segundo ela, o período acelerou transformações que alteraram profundamente as formas de convivência e participação dos estudantes. “A parte tecnológica entrou na nossa vida de uma forma absurda. A bateria tem uma característica que não pode ser reproduzida remotamente. É natural que esse processo tenha provocado mudanças”, avalia. Apesar desses fatores, a pró-reitora acredita que os grupos passam por um processo de reorganização e adaptação. Para ela, a tendência é que a participação volte a crescer à medida que novas gerações redescubram esses espaços de convivência universitária.

Algumas das BU ‘s que mantiveram suas atividades após o período de pandemia, mesmo com a redução de ritmistas e em um cenário de dificuldades, foram: Mafiosa, Madrasta  e   Tagarela. Já baterias que antes estavam inativas, também retornaram em uma luta contra as dificuldades para se manter, um exemplo disso é a Banguela, que retornou ao Desafio das Baterias do Maior Inter, evento tradicional das BU’s da UFG, em 2026, após quatro anos de inatividade. E além das baterias que estão retornando, há outras que surgem em meio a esse cenário defasado, como é o caso da Dramática, bateria da Escola de Música (EM), Instituto de Artes Cênicas e da Faculdade de Artes Visuais (FAV).

Universidade Federal de Goiás
Baterias
Universitárias
Linha do tempo das baterias da UFG — fundação, inatividade e unificações entre 2003 e 2026.
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Baterias
Ativas
Inativas
2003–2026
Período
Ativa
Inativa
Unificação
Ano incerto
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Baterias Universitárias UFG · Dados fornecidos manualmente ⚪ Barras tracejadas = anos estimados ou desconhecidos

Do erudito ao popular e coletivo: Dramática

Bateria Dramática no Desafio das Baterias Inter 25 UFG; Foto: Laura Gomes e Ellen Itacaramby

Fundação:

A Bateria Dramática surgiu em 2023 por meio do amor pela percussão. Criada na antiga Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC), através do estranhamento de uma faculdade de música não ter uma bateria universitária. Heitor Sansaloni, 26 anos, formado em Musicoterapia pela a UFG , reconta sua trajetória de como eles junto com seus amigos fundaram a Dramática,“foi bem pessoal, […] bateria para mim é muito importante, eu mudei de curso por causa de bateria, para  trabalhar com música.”

🥁 Memorial Histórico
Nossa História
Linha do tempo da Bateria Dramática · 2023 a 2026.
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Fundação
Pódio
Participação
Pausa
2023
Fundação da Bateria Dramática
2° semestre
A Bateria Dramática nasce no segundo semestre de 2023, reunindo os primeiros integrantes para construir a identidade do grupo.
2024
Pódio no Maior Inter 🥉
3° lugar
Já na primeira participação, a Dramática conquistou o 3° lugar no Torneio das Baterias do Maior Inter — uma estreia histórica.
2025
5° lugar no Maior Inter
5° lugar
A Dramática volta ao Torneio das Baterias e termina em 5° lugar, mantendo presença entre as baterias mais competitivas.
2026
Ano de Pausa
sem participação
Em 2026, a Bateria Dramática não tocou no Torneio. O silêncio é parte da história — e a volta promete ser ainda mais forte.
Bateria Dramática 2023 – 2026

Com o tempo, ficou evidente o motivo: o ambiente da escola é estruturado, sobretudo, em torno da música erudita. “O pessoal da música é nichado. A cultura de bateria é popular e coletiva, e o modo como a gente ensina, observando e repetindo, é muito diferente do curso padrão, onde se entrega uma partitura e a pessoa toca”, explica Heitor. A rotina intensa de ensaios de instrumentos clássicos, somada aos compromissos noturnos em bares e eventos, deixava pouco espaço para a construção de um projeto coletivo.

Foi nesse cenário que a Dramática começou a tomar forma no segundo semestre de 2023. Sem divulgação formal, o grupo cresceu pelo boca a boca, reunindo estudantes que sentiam falta de uma vivência prática e menos convencional. O objetivo era claro: integrar os cursos de Musicoterapia, Música, Teatro e Direção Teatral em um espetáculo que transcendesse as notas musicais, incorporando figurino, cena e narrativa ao palco. Em 2024, a bateria deu um passo relevante ao se tornar um projeto de extensão, abrindo espaço também para a participação da comunidade externa.

Drama da Dramática:

Desde sua fundação, a Bateria Dramática enfrenta desafios que ameaçam sua continuidade, sendo o principal deles a baixa adesão estudantil. O grupo se sustenta, essencialmente, pela dedicação daqueles dispostos a mantê-lo vivo.

Em busca de ampliar o número de integrantes, a Dramática se uniu à Atlética Pintada. Ainda assim, a bateria não participou do Desafio das Baterias do Inter 2026, mesmo após a unificação, a equipe não atingiu o número mínimo de ritmistas exigido pelo regulamento. A ausência na competição, porém, não significou o fim do grupo.

As dificuldades também se estendem ao campo financeiro e logístico. Montar uma bateria, mesmo de pequeno porte, representa um investimento considerável: os instrumentos chegam a custar entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, e o grupo ainda enfrenta entraves burocráticos para utilizar os próprios espaços da EMAC nos ensaios. No início, o apoio veio de lugares inesperados, entre eles eventos de arrecadação como o “Dramaoke”, encontros de karaokê realizados em um bar próximo à UFG. Em períodos de competição, o grupo se mantém com uma mensalidade simbólica de R$ 20 por ritmista, destinada à manutenção básica dos equipamentos, como peles e baquetas. Mas o obstáculo maior vai além das finanças. “Se não tiver gente, a bateria não existe”, resume Heitor.

Mesmo assim, a Dramática segue em atividade. Com ensaios regulares, capacitação de calouros e apresentações fora do calendário competitivo, o grupo resiste e se reinventa. Para quem a integrou, a bateria representa algo que vai além do palco: um espaço onde a música popular, o teatro e a identidade coletiva se encontram dentro de uma instituição que, historicamente, pouco abriu espaço para isso.

Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue-zá: Tagarela

Bateria Tagarela no Desafio das Baterias Inter 2013; Foto: Autor desconhecido 

Fundação 

Fundada em agosto de 2012, a Bateria Tagarela se tornou um dos símbolos de integração e tradição da FIC da UFG. Sua história começou a partir da iniciativa de três estudantes de Relações Públicas, Láira Machado, Bárbara Falcão e Luana Pimenta, que decidiram transformar em realidade um sonho cultivado desde o primeiro Desafio de Baterias do Inter UFG, realizado em 2008. Inspiradas pelas baterias de outros cursos da universidade, as estudantes deram os primeiros passos para criar o grupo no segundo semestre de 2012. A proposta rapidamente encontrou apoio entre alunos envolvidos com a Associação Atlética Acadêmica da faculdade, que demonstraram interesse em participar do projeto. 

Láira Machado, uma das fundadoras da bateria Tagarela, relembra os desafios presentes no início da trajetória. “No segundo semestre de 2012, decidimos colocar a ideia em prática. Reunimos algumas pessoas da Atlética que tinham interesse em tocar na bateria e explicamos que, para o projeto acontecer, precisávamos da ajuda de todos. Já tínhamos feito um orçamento e os instrumentos custariam cerca de R$ 6 mil para uma bateria com 25 a 30 integrantes”, recorda. Sem recursos para iniciar o projeto, os próprios estudantes fizeram um planejamento financeiro coletivo e pagaram mensalidade para custear as parcelas da compra, feita no cartão de crédito do pai de Láira. Cada integrante se comprometeu a contribuir mensalmente e a auxiliar na logística e manutenção dos instrumentos. A mobilização dos estudantes marcou o início da trajetória da Bateria Tagarela, que nasceu da união entre amigos e da paixão pelo samba e pela determinação de um grupo com identidade dentro da FIC)

🥁 Memorial Histórico
Nossa História
Linha do tempo da Bateria Tagarela · FIC / UFG — de 2012 a 2026.
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1° lugar
Pódio
Participação
Pausa
2012
Criação da Bateria Tagarela
A Tagarela nasce oficialmente, com os primeiros integrantes se reunindo para ensaiar e dar forma ao som do grupo.
2013
1° Desafio
Primeira participação oficial da Tagarela no Desafio, estreando entre as baterias mais experientes.
2014
Primeiro Pódio
3° lugar
A primeira medalha da história do grupo, fruto de um ano inteiro de ensaios e evolução técnica.
2015
Campeã! 🏆
1° lugar
Título de campeã do Desafio — o maior resultado da história da Tagarela até aquele momento.
2016
Pódio + Estreia na Batucada
3° lugar
Segundo pódio seguido no Desafio. No mesmo ano, a Tagarela estreou na Batucada terminando em 2° lugar.
2017
4° lugar
Resultado fora do pódio, mas com a base do grupo cada vez mais consolidada.
2018
Pódio
3° lugar
De volta ao pódio, mantendo a Tagarela entre as melhores baterias da competição.
2019
Pódio
3° lugar
Terceiro pódio da década, fechando os anos 2010 com resultado consistente.
20-21
Pandemia
pausa
Ensaios e competições presenciais interrompidos pela pandemia de Covid-19.
2022
7° lugar
Retomada das atividades após a pandemia, com o grupo se reconstruindo aos poucos.
2023
5° lugar
Evolução em relação ao ano anterior, recuperando posições na competição.
2024
4° lugar
Mais um passo na reconstrução pós-pandemia, encostando de novo no pódio.
2025
Pódio
3° lugar
Retorno ao pódio, coroando a recuperação dos anos anteriores.
2026
Pódio
3° lugar
Segundo pódio consecutivo, mostrando a Tagarela firme entre as melhores baterias.
Bateria Tagarela · FIC / UFG 2012 – 2026

A estreia da Tagarela no Desafio de Baterias do Inter UFG, atualmente conhecido como Maior Inter, aconteceu em 2013 e marcou o início de um trabalho cheio de inovações na competição. Naquele ano, a Tagarela tornou-se a primeira bateria a apresentar um figurino que combina com a temática da música apresentada, a inspiração veio de elementos militares e da ideia de resistência. A apresentação, intitulada Viva La Comunicación, buscava unir música, identidade e expressão política por meio de referências visuais ligadas ao revolucionário Ernesto Che Guevara. Laíra explica que a proposta ia além da performance musical. “A música está muito atrelada às emoções e aos sentimentos. Então, a gente usava isso como forma de expressão e manifestação. A primeira apresentação da Tagarela foi Viva La Comunicación. Trouxemos referências do Che Guevara”, relembra.

Nos primeiros anos, toda a estrutura da bateria era mantida pelos próprios estudantes. Até 2025, a Bateria Tagarela e a Associação Atlética Acadêmica funcionavam de forma unificada, compartilhando responsabilidades e recursos. Como a entidade no início não possuía uma sala própria, os instrumentos eram armazenados na casa de diretores e ritmistas. Os alunos também eram responsáveis pela criação das coreografias, pela idealização dos figurinos, organização dos equipamentos e logística. A dedicação coletiva foi fundamental para a consolidação do projeto. Mais do que garantir apresentações anuais nas competições universitárias, os integrantes buscavam construir uma tradição capaz de atravessar diferentes gestões e permanecer viva entre as gerações seguintes de estudantes. Esse esforço contribuiu para o crescimento técnico da bateria e para o fortalecimento de sua identidade dentro do cenário universitário goiano. 

Os resultados começaram a aparecer ao longo dos anos. Em 2016, a Tagarela conquistou o terceiro lugar no Desafio de Baterias do Inter UFG, desempenho que levou os ritmistas a ter  ambições de novas competições, fora da zona de conforto. No mesmo ano, a bateria participou do Batucadas, encontro regional que reuniu diversas baterias universitárias de Goiás, entre elas a Banguela, da Odontologia da UFG, a Venenosa, da Enfermagem da UFG, e a Caótica, da Medicina da PUC Goiás. O evento tinha como objetivo promover a integração entre as baterias e valorizar a percussão como uma importante manifestação da cultura popular brasileira. Com uma apresentação inspirada no ritmo nordestino baião, a Tagarela conquistou o segundo lugar na competição, consolidando-se entre os principais grupos universitários de percussão do estado.

Entre trancos e barrancos  

Dentre os anos de 2014 a 2019 , a bateria permaneceu entre as três melhores colocadas do Desafio de Baterias do Inter UFG. Entretanto, com a pandemia de Covid-19, nos anos de 2020 e 2021,  as atividades da  bateria foram  interrompidas; e quando voltaram, se depararam com uma nova realidade: a mudança de perfil dos estudantes. Lucas Gonçalves explica: “O aluno da faculdade, ele tá diferente depois da pandemia. Ele percebeu que esse social não é mais necessário. Pós pandemia, como ele fez aula em casa, ele fala: ‘Eu quero fazer só a faculdade’  é não é um foco para ele. Então, tá tendo um enfraquecimento, uma reestruturação até do jeito de lidar com ritmista.” Outro problema enfrentado pela bateria foi a saída de ritmistas antigos e a forma como foi para a bateria voltar à ativa. Nesse contexto, surge uma das ex-diretoras, Raíssa Guadalupe, formada em Publicidade e Propaganda. Engajada na bateria desde 2018, ela foi uma das principais figuras para a reconstrução interna da Bateria Tagarela. 

Os anos de 2022 e 2023 foram de luta e perseverança, enfrentando colocações como 7º e 5º lugar. No ano de 2023 a Tagarela chegou a rodar o ciclo do torneio com apenas 3 diretores: Raíssa Guadalupe, Pedro Henrique Bernardes e Yasmim Ferreira. Neste ritmo da luta para manter a bateria viva, veio à tona uma das tradições da bateria Tagarela: a música “Escravos de Jó” cantada depois de suas apresentações. O trecho “ Guerreiros com guerreiros, fazem zigue zigue – zá”, de acordo com Láira, foi escolhido pela essência dos “guerreiros”, e traz o contexto de que a Tagarela é guerreira e nunca se deixou vencer.

Ritmistas da Bateria Tagarela de 2018, 2025 e 2026 fazendo escravos de Jó; Vídeo: Gustavo Almeida e Ana Paula Penha

Volta ao pódio

Após cinco anos sem alcançar o pódio do Desafio das Baterias, a Tagarela voltou a ficar entre as melhores baterias da UFG em 2025. Com 33 ritmistas e uma diretoria formada por sete integrantes, contando com o regente, a bateria conquistou o terceiro lugar na competição, dividindo o pódio com as baterias Madrasta e Mafiosa. Para Gerson Borges, graduando de Publicidade e Propaganda e regente da bateria naquele ano, a conquista representou a concretização de um trabalho construído ao longo de vários ciclos.

“Desde 2023, que foi quando eu entrei, a gente tinha essa ideia de voltar para o pódio. Todo ano criávamos expectativa, mas chegava no dia do resultado e a apresentação não saía como esperávamos. Quando percebi que estávamos no pódio, comecei a chorar ali mesmo e não parei mais”, relembra.

Segundo ele, a conquista foi resultado de mudanças na organização interna da bateria, na metodologia dos ensaios e na preparação dos ritmistas. O terceiro lugar também simboliza a recuperação de uma tradição que havia sido interrompida nos últimos anos e um sinal de resistência e esperança para as baterias e seus integrantes.

O ritmo como destino e pertencimento

O movimento das BU’s se consolidou, tanto na UFG, quanto em outras Universidades, como uma das principais formas de integração e identidade estudantil. Além das competições, as baterias exercem um papel fundamental na atração de novos estudantes e na construção de um ambiente de acolhimento que muitas vezes define a permanência do aluno na instituição. Para muitos estudantes, a escolha da universidade é baseada pela distância ou então pelos números acadêmicos, mas para Filipe Maciel, conhecido como Fil, o que o trouxe do Piauí para Goiás foi o batuque. O publicitário de 26 anos, formado pela Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), veio para Goiânia após ver uma apresentação da Bateria Tagarela pelo celular, em 2018, ficou apaixonado e decidiu vir cursar seu sonho de infância na UFG. “Eu estava fazendo cursinho online, estudava todas as madrugadas… sempre muito focado em fazer a minha faculdade de publicidade, mas muito impulsionado também pela vontade de estar na Bateria Tagarela, de tocar com eles, de poder fazer parte daquele movimento”, compartilha Fil.

Ingressando em 2020, ele viveu o hiato da pandemia e o desafio da retomada em 2022, quando assumiu cargos de diretoria. Para ele, a bateria funcionou como um laboratório de competências pessoais e profissionais, ajudando a superar a solidão e a individualidade deixada pela pandemia, conta que os ensaios foram um lugar que ele teve a oportunidade de crescer como pessoa e de aprender a lidar com os outros, habilidades que muitas pessoas perderam no período de isolamento social. Ele destaca ainda o papel fundamental do coletivo na saúde mental de quem vem de fora: “A bateria, esse lugar de socialização, faz muita diferença para quem vem de outro estado. Nos dias em que eu estava com muita saudade dos meus pais, eu ia para os ensaios e tinha aquelas pessoas perto de mim”, como aponta também a pró-reitora de extensão, esse contato fortalece o vínculo do aluno com a universidade. 

Esta reportagem utilizou ferramentas de inteligência artificial na produção de elementos visuais (Claude). A apuração, a checagem dos dados, a realização das entrevistas e a edição final do conteúdo foram conduzidas pela equipe de reportagem.

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