Subsolo da Promessa

Em 2024, Goiás tornou-se o centro nacional da disputa entre Estados Unidos e China por minerais de terras raras, essenciais para a indústria tecnológica e a transição energética, a substituição de fontes não renováveis de energia, para fontes renováveis. Esse cenário alterou não apenas as discussões sobre o futuro geopolítico na disputa por minerais estratégicos, de alta relevância econômica, mas mudou a rotina e a perspectiva de futuro de famílias que habitam os locais afetados pela atividade.

Iporá está localizada na região Oeste do estado, a 215 quilômetros de Goiânia, e possui uma população estimada em cerca de 35,6 mil habitantes, segundo dados do Censo de 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Atualmente se encontra em fase de pesquisa sobre a possibilidade de exploração de terras raras na região. O tema, que ainda é nebuloso na mente dos moradores, vem gerando debates. Matildes Rodrigues, proprietária rural, diz que a falta de informações é o que mais causa angústia. “As informações que a gente tem são das redes sociais, né? A gente não entende nada, não sabe nada. Estamos buscando saber o que pode ser”.

Hoje em dia, o centro das discussões sobre a exploração de terras raras é o município de Minaçu, no Norte goiano, a 487 quilômetros da capital. Em 2024, a Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM) começou no município a primeira mina comercial desses elementos no país e a única em operação de extração na América Latina. O empreendimento fortalece a posição estratégica do Brasil, que possui a segunda maior reserva desses minerais no mundo, ficando atrás apenas da China.

“Óia dona, quem conhece Minaçu sou eu”, conta seu Revalino Santos, morador do município há mais de três décadas. Quilombola da comunidade Kalunga, e muito orgulhoso dos seus 64 anos, ele carrega na memória as marcas da trajetória de uma vida, e de uma cidade inteira.

Revalino Santos

Minaçu, desde sua formação, é marcada pela atividade mineradora, o que se reflete, inclusive, no nome. Quando surgiu, em 1975, a vila era conhecida pelo nome de “Patrimônio do Beja”, mas em 1976 com a chegada da Sama Minerações e Associados ao município, um comerciante local sugeriu renomear o povoado para “Minaçu”, combinação da palavra portuguesa “Mina” com o termo tupi-guarani “Açu”, que significa “grande”. Assim nasceu “Mina Grande”, Minaçu.

Revalino se lembra da chegada da Sama à cidade, por volta de seus 14 anos. Na mesma época, ele recorda, inauguraram os primeiros mercados da região. “Eu ia comprar balinha, foi aí que eu comecei a conversar com o povo”.

Hoje, o município de 27 mil habitantes que carrega marcas da longa herança de exploração do amianto, virou peça-chave na disputa mundial por minerais estratégicos. Mas, para quem vive em Minaçu e Iporá, o que predomina no presente é a desconfiança.

Dita Carvalho, presidente da Associação Quilombola de São Félix Minaçu, destaca que a falta de diálogo e a incerteza sobre o assunto vêm se tornando um problema grave entre as comunidades periféricas da região.

Dita Carvalho

Quando se fala em terras raras, a gente já está com outro problema: a empresa chega, conversa com o poder público. Não chama a população para participar. Eles fazem os negócios, fazem tudo, e a população quilombola fica fora do orçamento da empresa. Quer dizer: nós não somos ninguém.

Dita Carvalho

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