SUBSOLO
DA PROMESSA
Entre o passado que se vive e o futuro que se espera Ontem, amianto Hoje, terras raras E por que Goiás? Já nas fases de pesquisas… O medo e os impactos socioambientais Tentando sobreviver à água, caíram no amianto e agora nas terras raras

Segundo dados do Balanço Mineral Brasileiro de 2001, a exploração de amianto no Brasil começou na Bahia, em 1936. Mas foi com a mina de Cana Brava, gerida pela Sama em Minaçu, que o país deixou de ser importador para se tornar exportador, alcançando a terceira posição mundial na produção. 

Nos anos seguintes à instalação da Sama, considerada a maior mina de amianto em atividade do Brasil, o município viveu um boom de desenvolvimento, mas também de dependência econômica. A mina a céu aberto atraiu trabalhadores de várias regiões, impulsionou o comércio local e moldou a paisagem urbana da cidade. 

O amianto é uma fibra mineral muito utilizada na construção civil para fabricação de telhas,  isolantes térmicos e peças automotivas, devido à resistência ao calor e por ter custo baixo.

Mas o mesmo minério que trouxe prosperidade também carregou, durante anos,  riscos à saúde e impactos ambientais. Desde 1972, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificava o amianto como altamente cancerígeno. Em 2017, novos alertas reforçaram os perigos do contato com a substância, intensificando os embargos e disputas judiciais que marcaram o declínio da atividade em todo o mundo. “Meu pai, com o espaço de tempo, pegou alergia desse pó do amianto”, explica Dita. O medo que acompanha as memórias do dano causado pelo mineral mágico marcam toda a comunidade de Minaçu. 

José Alves, esposo de Dita, ainda se lembra de acompanhar o sogro, seu Guilherme, em visitas regulares a Goiânia, para o tratamento das doenças trazidas junto ao dito desenvolvimento econômico da região. Segundo ele, os moradores de Minaçu tinham um ponto de apoio para o tratamento de câncer na capital, e na época em que acompanhava seu Guilherme, mais de 15 pessoas necessitavam do mesmo tipo de atendimento. A causa da maioria das mortes, lembra ele, era de enfisema pulmonar.

Daquela época, quem trabalhou na SAMA, pode contar nos dedos hoje que não tem mais nenhum vivo

José Alves

 Segundo dados do Atlas do Câncer Relacionado ao Trabalho no Brasil elaborado pelo Ministério da Saúde, o contato com o amianto aparece entre as maiores causas de câncer decorrente do trabalho, desde 1980. 

Mesmo após a determinação de encerramento das atividades da Sama pelo STF em 2022, a exploração do mineral ainda causa anseios e preocupações na comunidade quilombola. Os rejeitos da mineradora, toneladas de resíduos de amianto acumulados ao longo dos anos de extração, são mantidos a céu aberto. 

Dita explica que embora a área do bairro Nova Esperança seja monitorada, ainda restam dúvidas sobre a eficácia dos métodos utilizados para evitar a contaminação pelo pó dos rejeitos, que ficam a poucos metros das casas localizadas na periferia do município. “ Eles falam que jogam água ali em cima do rejeito. Enquanto está molhado, tudo bem, mas quando seca o vento vem tudo para dentro do setor”. A preocupação se agrava pela proximidade da região dos rejeitos com o terreno da Escola Quilombola, inaugurada no início de 2026.

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